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Entendendo Algoritmos

Algoritmo

Quando se fala em algoritmos, muitos pensam logo em uma linguagem específica: C, Python, Java, JavaScript. Mas, antes de escolher qualquer linguagem, existe uma camada mais básica, que é como a ideia do algoritmo. Ou seja, como escrever o passo a passo de forma clara, organizada e independente de qualquer tecnologia específica.

É disso que trata essa parte: montar uma maneira padrão de apresentar algoritmos, usando um tipo de pseudocódigo. A ideia é ter uma “linguagem de meio de campo”: não é código de verdade que se joga num compilador, mas também não é português solto. É um misto dos dois, pensado para que qualquer pessoa com noção básica de programação consiga entender a lógica sem ficar presa à sintaxe de uma linguagem concreta.

Por que usar uma forma padrão de escrever algoritmos?

Imagine que três pessoas diferentes queiram explicar o mesmo algoritmo:

  • uma escreve em C
  • outra escreve em Python
  • outra escreve em Java

As três versões fazem a mesma coisa, mas quem está aprendendo vai ter que entender três sintaxes, três jeitos de declarar variáveis, três estilos de laço. O risco é que a pessoa se perca nos detalhes da linguagem e não enxergue a ideia central do algoritmo.

Por isso se usa um pseudocódigo: uma linguagem simplificada, parecida com linguagens clássicas, mas sem detalhes de compilador, biblioteca padrão, tipos exatos etc. O que importa é:

  • os comandos básicos;
  • a forma como blocos de código são escritos;
  • o jeito de expressar condições, repetições, chamadas de procedimentos;
  • e alguma convenção mínima para vetores, matrizes, registros e ponteiros.

Essa padronização permite que toda a discussão sobre algoritmos gire em torno do raciocínio, não da sintaxe.

Blocos e indentação: quem está “dentro” de quem

Um conceito essencial é o de bloco de comandos.
Bloco é um conjunto de instruções que funcionam como uma unidade, o corpo de um se, o corpo de um enquanto, o conteúdo de um procedimento, e assim por diante.

Em muitas linguagens, blocos são marcados com palavras como begin e end ou com chaves { e }. Aqui, a ideia é usar algo que você provavelmente já viu:

Indentação (recuo na margem esquerda)

Funciona assim:

  • um comando que controla um bloco (por exemplo, um se ou um enquanto) aparece mais “para a esquerda”;
  • tudo o que estiver logo abaixo, um pouco mais recuado, faz parte do bloco controlado por ele;
  • quando o recuo volta, o bloco terminou.

É exatamente o estilo usado em linguagens como Python. Visualmente, fica muito mais fácil ver quais comandos pertencem a qual estrutura. Isso ajuda principalmente em algoritmos com vários níveis de aninhamento, por exemplo, um se dentro de um enquanto dentro de um para.

Atribuição: o famoso “recebe”

Outro ponto importante é a forma como se escreve a atribuição, isto é, o ato de colocar um valor dentro de uma variável.

Em vez de usar o sinal de igual simples, é comum escrever:

x := 5

Isso se lê como:

“x recebe 5”

O motivo de usar := é evitar confusão com matemática pura.
Em matemática, x = 5 é uma afirmação de que x é igual a 5, simétrico. Em programação, muitas vezes o igual significa “atribuí esse valor a essa variável”, que é uma operação assimétrica: o lado esquerdo é alterado, o lado direito é avaliado.

Com o :=, fica mais claro que se trata de uma ação: o valor anterior de x é substituído por um novo.

Podem aparecer expressões como:

soma := soma + x
i := i + 1
troca := A[i]
A[i] := A[j]
A[j] := troca

Todas elas seguem a mesma ideia: calcular o valor da expressão à direita e gravar o resultado na variável à esquerda.

Comandos de controle: decisões e repetições

Para que um algoritmo seja mais do que uma lista boba de comandos em sequência, ele precisa ser capaz de:

  • tomar decisões (fazer algo se uma condição for verdadeira);
  • repetir ações enquanto certas condições forem satisfeitas.

Os comandos mais comuns que aparecem nessa forma de apresentação de algoritmos são:

1. se ... então e se ... então ... senão

Eles representam o famoso if da maioria das linguagens.

Exemplo:

se x > 0 então
    escreve("x é positivo")

Ou, com alternativa:

se x > 0 então
    escreve("x é positivo")
senão
    escreve("x é menor ou igual a zero")

A condição é alguma expressão lógica (comparações, combinações com e, ou, etc.).
O bloco identado abaixo de então só é executado se a condição for verdadeira.
O bloco abaixo de senão só é executado se a condição for falsa.

2. enquanto ... faça

Representa um laço de repetição condicionada:

enquanto aindaTemPratoSujo faça
    lavaPrato()
    verificaSeAindaTemPratoSujo()

A leitura é: enquanto a condição for verdadeira, execute o bloco.
Assim que a condição se tornar falsa, o laço termina.

Esse tipo de laço é muito útil quando não se sabe de antemão quantas repetições serão necessárias. É como dizer “enquanto o usuário não acertar a senha, continue pedindo”.

3. para ... faça

Representa um laço de repetição em que a quantidade de iterações é conhecida ou determinada por um intervalo:

para i de 1 até n faça
    soma := soma + A[i]

Aqui a leitura é mais direta: o índice i percorre todos os valores de 1 até n, e para cada valor são executados os comandos do bloco. É o padrão quando se precisa percorrer elementos de um vetor, linhas de uma matriz etc.

4. pare

É um comando usado, dentro de um laço, para interromper a repetição antes do fim “natural”.

Por exemplo:

para i de 1 até n faça
    se A[i] = x então
        posicao := i
        pare

Nesse caso, assim que o elemento procurado é encontrado, o pare interrompe o laço, mesmo que i ainda não tenha chegado a n.

Variáveis simples: números, caracteres, lógico

Nesse estilo de algoritmos, assume-se que existem alguns tipos básicos de dados:

  • Inteiros: números sem parte decimal, positivos ou negativos.
  • Reais: números com parte decimal.
  • Caracteres: letras, dígitos, símbolos, normalmente representados entre aspas simples: 'a', 'Z', '7'.
  • Booleanos (lógicos): verdadeiro ou falso.

Uma variável é só um “nome” que aponta para uma posição de memória onde um valor desse tipo é armazenado.
Por exemplo:

i    : inteiro
media: real
letra: caractere
ok   : booleano

(As declarações formais nem sempre aparecem completas no pseudocódigo, mas esse é o espírito.)

Vetores: uma fileira de caixinhas numeradas

Um vetor é uma coleção de elementos todos do mesmo tipo, guardados em posições numeradas.
Você pode imaginar como uma fileira de caixinhas:

A[1], A[2], A[3], ..., A[n]

Cada posição é acessada por um índice. Alguns exemplos:

  • A[1] é o primeiro elemento.
  • A[i] é o elemento da posição i, que pode variar ao longo de um laço.
  • A[n] é o último.

É comum ver coisas como:

para i de 1 até n faça
    soma := soma + A[i]

ou:

A[i] := A[i] + 10

O importante é perceber que, quando aparece S[1..n], por exemplo, isso representa um vetor S com índices indo de 1 até n.

Matrizes: uma espécie de planilha

Uma matriz é uma generalização do vetor: em vez de uma dimensão, são duas (linha e coluna). É como uma planilha de Excel:

B[linha, coluna]

Por exemplo, uma matriz com n linhas e n colunas pode ser escrita como:

  • B[1..n, 1..n]

Para percorrer todos os elementos, usa-se dois laços aninhados:

para i de 1 até n faça
    para j de 1 até n faça
        C[i, j] := A[i, j] + B[i, j]

Aqui, C[i, j] recebe a soma dos elementos de A e B na mesma posição.

Matrizes são fundamentais em algoritmos numéricos, gráficos, simulações físicas etc.


Registros: vários campos sob um só nome

Às vezes, guardar um único valor por variável não é suficiente.
Pense em um “aluno”:

  • nome
  • matrícula
  • idade
  • média

Faria pouco sentido ter quatro vetores separados e tentar ficar sincronizando os índices. Em vez disso, entra o conceito de registro (similar ao struct em C).

Um registro é um agrupamento de campos. A notação típica é:

aluno.nome
aluno.matricula
aluno.idade
aluno.media

Ou seja, aluno é o registro, nome é um dos campos.
Dentro de algoritmos, é comum ver coisas como:

T.chave
T.info

onde T é um registro e chave, info são campos.

Registros são a base para estruturas mais ricas, como listas de alunos, tabelas de produtos, cadastros etc.

Ponteiros: referências para registros

Agora entra um conceito que, de início, assusta um pouco, mas é crucial para certas estruturas de dados: o ponteiro.

Um ponteiro é uma variável cujo valor não é um número comum, nem um caractere; é um endereço de memória. Em vez de guardar diretamente os dados, o ponteiro “aponta” para onde os dados estão.

Uma analogia:

  • o registro é a casa;
  • o ponteiro é o endereço da casa anotado num papel.

A notação pode usar algo como:

pt↑.info

Aqui, pt é o ponteiro. O símbolo indica “o registro para o qual ele aponta”. E .info é um campo desse registro.

Então, pt↑.info significa:

“O campo info do registro cujo endereço está armazenado em pt.”

Isso é muito útil em estruturas como listas encadeadas, em que cada nó guarda não só dados, mas também um ponteiro para o próximo nó.


Procedimentos, funções e parâmetros por referência

Para organizar algoritmos, é comum dividir o código em sub-rotinas:

  • procedimentos: executam uma ação, mas não devolvem diretamente um valor;
  • funções: devolvem um valor (por exemplo, o resultado de um cálculo).

A passagem de parâmetros pode ser vista de duas maneiras principais:

  1. Por valor
    O procedimento recebe uma cópia do valor. Se ele alterar a variável dentro da sub-rotina, isso não se reflete fora.

  2. Por referência
    O procedimento recebe algo que permite acessar diretamente a variável original (por exemplo, o endereço dela). Se o procedimento alterar o parâmetro, a variável do chamador também é alterada.

Na forma de apresentação que estamos usando, é comum assumir passagem por referência. Isso torna natural que um procedimento possa modificar vetores, registros etc., sem precisar devolvê-los explicitamente.

Uma analogia simples:

  • Por valor: você tira uma fotocópia de um documento e deixa a cópia com a pessoa; o original não muda.
  • Por referência: você entrega o documento original; a pessoa pode riscar, corrigir, grampear, e quando ele volta está diferente.

Comentários: explicando em português o que o código faz

Junto do pseudocódigo, aparecem os comentários, geralmente marcados por um símbolo especial, como %.

Tudo o que vier depois desse símbolo, na mesma linha, é ignorado na interpretação do algoritmo, e serve apenas para seres humanos.

Por exemplo:

soma := 0          % zera o acumulador
para i de 1 até n faça
    soma := soma + A[i]    % adiciona o elemento i

Comentários ajudam muito a entender a intenção do algoritmo:

  • explicar o que uma variável representa;
  • indicar por que um laço termina em tal condição;
  • apontar detalhes importantes que, só olhando o código, podem não ficar claros.

Para quem está estudando, vale a pena ler os comentários com calma, porque eles carregam a explicação em linguagem natural.

Um exemplo prático: inverter uma sequência em um vetor

Tudo isso ganha mais sentido com um exemplo.
Considere um vetor S[1..n] com n elementos. O objetivo é inverter a ordem desses elementos dentro do próprio vetor.

Se a sequência for:

S = [ 10, 20, 30, 40, 50 ]

quer-se obter:

S = [ 50, 40, 30, 20, 10 ]

A ideia intuitiva é:

  1. Trocar o primeiro com o último.
  2. Trocar o segundo com o penúltimo.
  3. Continuar assim até chegar no meio do vetor.

Não faz sentido trocar o elemento do meio com ele mesmo. Por isso, se n é ímpar, esse elemento central fica onde está.

Como transformar isso em pseudocódigo?

Primeiro, pensa-se em um laço:

  • Vamos usar um índice i começando em 1 e indo até a metade de n.
  • Para cada i, vamos trocar S[i] com S[n − i + 1].

Por que n − i + 1?

  • Quando i = 1, temos n − 1 + 1 = n, o último elemento.
  • Quando i = 2, temos n − 2 + 1 = n − 1, o penúltimo.
  • E assim por diante.

A “metade de n” é formalizada usando a função piso (a parte inteira da divisão):

  • ⌊n/2⌋

Se n = 5, por exemplo, ⌊5/2⌋ = 2 (a parte inteira de 2,5). Então i vai de 1 a 2:

  • i = 1 → troca o 1º com o 5º;
  • i = 2 → troca o 2º com o 4º;
  • o 3º (do meio) permanece.

O pseudocódigo fica algo assim, em espírito:

para i de 1 até ⌊n/2⌋ faça
    temp := S[i]
    S[i] := S[n - i + 1]
    S[n - i + 1] := temp

Repare na variável temp: ela é uma variável temporária usada para não perder o valor de S[i] enquanto se sobrescreve S[i] com S[n − i + 1]. É como usar um copo extra para trocar o conteúdo de dois copos com água, sem derramar.

Esse pequeno algoritmo mostra:

  • como usar vetores;
  • como usar o laço para;
  • como manipular índices;
  • como usar atribuições e uma variável temporária;
  • como a indentação deixa claro qual é o bloco repetido.

Recursividade

Quando o assunto é algoritmos, uma palavra que sempre aparece e causa certo arrepio em quem está começando é recursividade. Ela tem cara de conceito difícil, parece algo meio filosófico, mas a ideia central é bem direta: um procedimento que se chama a si mesmo para resolver versões menores do mesmo problema.

Dá para imaginar como uma pessoa que recebe uma tarefa complicada, divide em partes menores, passa uma parte para outra pessoa, que por sua vez divide de novo e assim por diante, até o pedaço ficar simples o suficiente para ser resolvido na hora. A recursão faz algo assim, só que todas “essas pessoas” são, na verdade, o mesmo procedimento sendo chamado várias vezes, com parâmetros diferentes.

O que é recursividade

Um algoritmo recursivo é aquele em que uma função ou procedimento, em algum ponto do seu corpo, chama a si próprio.

Para não virar um loop infinito, sempre aparecem dois ingredientes:

  1. Casos base
    Situações simples, em que o problema já está pequeno o bastante para ser resolvido diretamente, sem nova chamada.

  2. Passo recursivo
    Regras que dizem como transformar o problema grande em um ou mais problemas menores do mesmo tipo.

Se só existir passo recursivo, o algoritmo entra em chamada atrás de chamada e nunca termina. Se só existir caso base, não há recursão. O jogo está no equilíbrio entre os dois.

Exemplo clássico: o fatorial

Um exemplo muito usado para explicar recursividade é o fatorial de um número inteiro n ≥ 0.

Definição:

  • 0! = 1
  • 1! = 1
  • n! = n × (n − 1)! para n ≥ 2

Ou seja, o fatorial de n é n vezes o fatorial de n − 1. A própria definição já é recursiva.

Se n = 5, por exemplo:

  • 5! = 5 × 4!
  • 4! = 4 × 3!
  • 3! = 3 × 2!
  • 2! = 2 × 1!
  • 1! = 1

Quando o algoritmo recursivo é escrito, ele costuma seguir exatamente essa definição:

  • Caso base: se n é 0 ou 1, retorna 1.
  • Passo recursivo: se n é maior que 1, retorna n × fatorial(n − 1).

De forma conceitual:

função fat(n)
    se n ≤ 1
        devolve 1
    senão
        devolve n × fat(n − 1)

Cada chamada guarda uma “tarefa pendente”: “preciso multiplicar n pelo resultado da função em n − 1”. Essas tarefas ficam empilhadas na memória até atingir o caso base. Quando o caso base devolve 1, as multiplicações começam a ser feitas na volta.

Essa combinação de “definição recursiva” com “prova por indução” é muito forte em matemática e programação: primeiro se mostra como resolver o problema para o caso simples, depois se mostra como resolver o caso geral supondo que o caso menor já está resolvido. A recursão traduz isso em código.

O que acontece nos bastidores da recursão

Visualmente, quando um procedimento recursivo é chamado, o computador:

  1. Guarda o estado atual da execução (variáveis locais, posição onde deve voltar) em uma pilha.
  2. Entra na nova chamada com parâmetros diferentes.
  3. Repete esse processo a cada chamada recursiva.
  4. Quando encontra um caso base, começa a “desempilhar”, voltando passo a passo.

Essa pilha é uma estrutura de dados do próprio sistema: o último a entrar é sempre o primeiro a sair. Por isso, em problemas com recursão muito profunda, pode acontecer de “estourar a pilha” (stack overflow), porque há chamadas demais pendentes ao mesmo tempo.

Do ponto de vista de quem está aprendendo, não é preciso dominar todos os detalhes de implementação da pilha para entender recursividade, mas é fundamental ter em mente que:

  • cada chamada recursiva ocupa memória;
  • recursão muito profunda exige cuidado;
  • muitas vezes, um algoritmo recursivo elegante pode ser reescrito de forma iterativa (com laços) para economizar memória.

Outro exemplo: sequência de Fibonacci

Outro exemplo famoso é a sequência de Fibonacci:

  • F(0) = 0
  • F(1) = 1
  • F(n) = F(n − 1) + F(n − 2), para n ≥ 2

Mais uma vez, a própria definição é recursiva. Um algoritmo simples copia isso exatamente:

função fib(n)
    se n ≤ 1
        devolve n
    senão
        devolve fib(n − 1) + fib(n − 2)

Esse código é curto e parece muito bonito, mas esconde um problema: explosão de chamadas. Cada fib(n) chama duas vezes a função para valores menores, que por sua vez chamam outras duas e assim por diante. O número de chamadas cresce de forma muito rápida, quase como 2.

Esse exemplo costuma ser usado para mostrar dois pontos:

  • recursão pode deixar o código mais próximo da definição matemática;
  • recursão inocente, sem cuidado, pode ter uma complexidade de tempo péssima.

Para resolver isso, é comum reescrever Fibonacci de forma iterativa ou usar técnicas como memoização, em que se guardam os resultados já calculados para evitar recomputações.

Exemplo visual: a Torre de Hanói

A Torre de Hanói é um quebra-cabeça perfeito para enxergar recursividade em ação.

Cenário:

  • existem três pinos (A, B, C);
  • vários discos de tamanhos diferentes empilhados no pino A, com o maior embaixo e o menor em cima;
  • objetivo: mover toda a pilha para o pino B;
  • regras: só é permitido mover um disco por vez e nunca se pode colocar um disco maior sobre um menor.

Parece complexo, mas recursão organiza o raciocínio.

Para n discos:

  1. mover os n − 1 discos de cima de A para C, usando B como apoio;
  2. mover o disco maior (o último) de A para B;
  3. mover os n − 1 discos de C para B, usando A como apoio.

Aqui aparecem claramente:

  • o caso base: se n = 1, basta mover um disco de um pino a outro;
  • o passo recursivo: resolver o problema com n discos supondo que existe uma solução para n − 1.

Cada chamada da função para n discos gera duas chamadas para n − 1 discos. O número total de movimentos cresce como 2 − 1, ou seja, rapidamente.

Esse problema é muito usado não só porque é visual, mas porque mostra bem o padrão:

“Para resolver o caso grande, imagine que já sabe resolver o caso menor.”

Essa frase é praticamente o coração da recursão.

Como pensar recursivamente

Para quem está começando, pensar recursivamente é quase como trocar o “modo manual” de raciocínio por um “modo declarativo”.

Em vez de ficar imaginando todos os passos de baixo nível, tenta-se responder a duas perguntas:

  1. Qual é a versão mais simples desse problema?
    Esse será o caso base.

  2. Como posso reduzir o problema atual a uma ou mais versões menores do mesmo problema?
    Esse será o passo recursivo.

Por exemplo, ao pensar no fatorial:

  • caso simples: fatorial de 0 ou 1 é igual a 1;
  • redução: fatorial de n é n vezes o fatorial de n − 1.

Na Torre de Hanói:

  • caso simples: mover 1 disco de um pino para outro;
  • redução: para n discos, mover n − 1 para o pino auxiliar, depois o maior, depois os n − 1 de volta.

Um ponto importante: é preciso garantir que essas reduções realmente aproximem o problema do caso base. Se o problema ficar do mesmo tamanho ou maior, não há progresso e a recursão nunca termina.

Relação entre recursão e laços

Quase todo algoritmo recursivo pode ser reescrito de forma iterativa, usando laços enquanto ou para.

No caso do fatorial, por exemplo, é simples escrever:

  • começar com um acumulador igual a 1;
  • multiplicar esse acumulador por 2, depois por 3, depois por 4, até chegar em n.

A recursão, nesse caso, não é a única opção, mas é uma forma natural de traduzir a definição matemática.

Há problemas em que a recursão facilita muito o raciocínio, como em árvores (percorrer uma árvore de diretórios, por exemplo) ou em algoritmos de divisão e conquista (quebrar o problema em subproblemas). Em outros, a recursão só complica ou gasta recursos à toa, e é melhor ficar nos laços.

De forma prática:

  • recursão favorece clareza em muitos cenários;
  • iteração costuma ser melhor em termos de uso de memória e, às vezes, de desempenho.

Alguns compiladores conseguem transformar internamente certas recursões em laços, principalmente nos casos de recursão de cauda, em que a chamada recursiva é a última instrução do procedimento. Isso reduz o custo de memória, mas depende de otimizações específicas.

Medindo o custo de algoritmos recursivos

Quando se analisa a eficiência de um algoritmo recursivo, uma técnica comum é:

  1. Contar quantas chamadas recursivas são feitas em função do tamanho da entrada.
  2. Calcular o custo de cada chamada isolada, sem considerar o custo das outras chamadas recursivas.
  3. Combinar as duas coisas para obter uma fórmula de tempo total.

No fatorial recursivo:

  • cada chamada reduz n em 1;
  • há n chamadas até chegar a 1;
  • cada chamada faz, basicamente, uma multiplicação;
  • resultado: tempo proporcional a n (complexidade linear).

Na Torre de Hanói:

  • o número de movimentos satisfaz a relação T(n) = 2·T(n − 1) + 1;
  • isso leva a T(n) = 2 − 1;
  • resultado: tempo cresce de forma exponencial.

Na sequência de Fibonacci com a definição ingênua:

  • cada fib(n) chama fib(n − 1) e fib(n − 2);
  • o número de chamadas cresce de forma aproximadamente proporcional a ϕ, onde ϕ é o número de ouro;
  • o custo explode rapidamente.

Essa análise mostra que recursão não é sinônimo de lentidão, mas que é importante entender a relação de chamadas para não ser surpreendido por algoritmos aparentemente inocentes.

Quando usar recursão vale a pena

Alguns tipos de problemas praticamente “pedem” recursão, porque a estrutura interna deles é recursiva:

  • Estruturas em árvore
    Percorrer pastas e arquivos em um sistema de arquivos; percorrer nós de uma árvore binária; interpretar expressões matemáticas aninhadas.

  • Dividir para conquistar
    Ordenar um vetor quebrando-o em dois (como no mergesort ou quicksort); encontrar o k-ésimo menor elemento dividindo o problema em subvetores.

  • Problemas definidos recursivamente
    Fatorial, Fibonacci, entre outros, em que a definição formal já usa o caso anterior.

Em todos esses casos, a recursão tende a dar um código mais curto e mais próximo da descrição conceitual do problema.

Cuidados ao usar recursividade

Alguns cuidados práticos:

  1. Definir claramente o caso base
    Sem caso base bem definido, o algoritmo não termina. E se o caso base estiver errado, pode terminar com resposta errada.

  2. Garantir progresso real
    Toda chamada recursiva deve aproximar a entrada do caso base. Reduzir n, encurtar uma lista, subir ou descer em uma árvore.

  3. Pensar na profundidade da recursão
    Em entradas muito grandes, o número de chamadas aninhadas pode ser alto demais e estourar a pilha de execução.

  4. Avaliar o custo de tempo
    É importante saber se a recursão gera apenas uma chamada por nível (como no fatorial) ou várias (como em Fibonacci ingênuo ou Torre de Hanói).

  5. Reescrever recursões perigosas
    Quando a recursão gera explosão de chamadas, vale buscar alternativas iterativas ou técnicas de otimização.

Recursividade como forma de pensar

Recursividade não é só uma técnica de programação, é um jeito de enxergar problemas. Sempre que um problema puder ser descrito como:

“versão simples” + “versão geral em termos de versões menores”

há espaço para um raciocínio recursivo.

Dominar recursão ajuda a:

  • compreender melhor provas por indução;
  • entender estruturas como árvores, grafos e expressões aninhadas;
  • escrever algoritmos mais próximos da descrição matemática.

Para quem está começando,:

  • praticar com exemplos simples (fatorial, máximo de um vetor, soma de elementos);
  • depois avançar para exemplos mais ricos (árvores, Hanói, algoritmos de ordenação recursivos);
  • sempre parar para identificar o caso base e o passo recursivo, como se estivesse contando uma história que vai se simplificando até chegar no final natural.

Quando essa forma de pensar entra no repertório, recursividade deixa de parecer um “bicho de sete cabeças” e passa a ser mais uma ferramenta, poderosa, ao lado dos laços, das estruturas de dados e de todo o resto que compõe o universo dos algoritmos.

Algoritmo eficiente

Quando alguém começa a estudar programação, sempre surge aquela pergunta que parece meio abstrata: “esse algoritmo é eficiente?”. Todo mundo entende o que é “funcionar” ou “não funcionar”, mas medir o quão pesado é um algoritmo já parece conversa de matemático. É justamente disso que trata o tema complexidade de algoritmos.

Imaginar que cada algoritmo tem um “custo” para ser rodado, e que esse custo depende do tamanho da entrada. Não é a mesma coisa somar 10 números e somar 10 milhões. Não é a mesma coisa procurar um nome em uma lista com 20 pessoas e em uma com 20 milhões. Complexidade é a forma organizada de responder a perguntas como:

  • Quantos passos esse algoritmo executa quando a entrada cresce?
  • Quanto tempo ele tende a gastar?
  • Quanta memória ele ocupa?

Tudo isso sem precisar ficar medindo com cronômetro em cada computador diferente.

Por que não basta medir com tempo de relógio

À primeira vista, alguém pode pensar: “por que não roda o programa e mede o tempo?”. Essa estratégia até funciona em testes práticos, mas tem vários problemas.

O tempo medido depende de coisas que não têm nada a ver com o algoritmo em si:

  • processador mais rápido ou mais lento;
  • quantidade de memória;
  • se o sistema operacional está ocupado com outras tarefas;
  • linguagem e compilador usados.

Um mesmo algoritmo pode parecer mais rápido em um computador e mais lento em outro, apenas por causa do hardware ou da implementação. Fica difícil comparar duas ideias de solução usando só segundos como unidade.

Por isso, quando se fala de complexidade, entra outro tipo de análise, teórica, baseado em um modelo idealizado. Em vez de se preocupar com o tempo em segundos, olha-se para o número de passos que o algoritmo executa, em função do tamanho da entrada.

Tamanho da entrada: o tal do “n”

Quase sempre aparece uma letrinha para representar o tamanho do problema. Em geral se utiliza n:

  • se o algoritmo recebe uma lista, n é o número de elementos;
  • se mexe com uma matriz quadrada, n pode ser a quantidade de linhas (e colunas);
  • se trata de um texto, n pode ser a quantidade de caracteres;
  • se trabalha com um grafo, n pode ser o número de vértices ou de arestas, conforme o contexto.

Complexidade de tempo passa a ser uma função como:

  • T(n) = número de passos que o algoritmo executa para uma entrada de tamanho n.

A grande pergunta deixa de ser “quantos segundos”, e vira “como T(n) cresce quando n aumenta”.

O que é um “passo” no algoritmo

Para conseguir conversar sobre complexidade sem cair em detalhes esotéricos, costuma-se definir um passo como um pequeno bloco de operações básicas:

  • uma soma;
  • uma comparação;
  • uma atribuição de variável;
  • acessar uma posição de vetor;
  • coisas desse nível.

O truque é agrupar essas operações em blocos que se repetem muitas vezes. Em vez de contar uma por uma, diz-se que:

  • determinado trecho é um passo;
  • o algoritmo faz esse passo tantas vezes.

Por exemplo, se houver um laço que percorre um vetor do primeiro ao último elemento somando tudo, o passo pode ser:

  • acessar o elemento atual;
  • somá-lo a um acumulador;
  • avançar o índice.

Uma repetição do laço corresponde a um passo. Se o vetor tiver n elementos, o laço executa n passos.

Operação dominante: o que realmente pesa

Nem todos os trechos do algoritmo têm o mesmo peso.
Um pequeno bloco de inicialização pode rodar só uma vez, enquanto outro bloco pode ser repetido milhares ou milhões de vezes.

Complexidade de algoritmos costuma prestar atenção na operação dominante, isto é, naquela parte do código que é repetida mais vezes e que, de fato, manda na conta final.

Se um algoritmo faz:

  1. um pequeno preparo inicial com 10 ou 20 passos;
  2. depois roda um laço que executa mil passos;
  3. no fim imprime um resultado;

a parte que mais contribui para o custo é o laço, não o preparo nem a impressão.
Quando se escreve a função T(n), normalmente as parcelas menores são engolidas pela que cresce mais rápido.

Ignorando detalhes que não mudam a ordem

Outro ponto fundamental: em análise de complexidade, não se liga para constantes exatas.

Se um algoritmo, para uma entrada de tamanho n, faz:

  • 3n + 5 passos;

e outro faz:

  • 7n + 12 passos;

ambos crescem “na mesma linha” quando n é muito grande. A diferença entre 3n e 7n é real, claro, mas em termos de ordem de grandeza ambos são proporcionais a n. Costuma-se dizer que os dois têm complexidade linear no tamanho da entrada.

Na prática, isso significa que:

  • dobra o tamanho da entrada → o número de passos dobra aproximadamente;
  • triplica o tamanho da entrada → o número de passos triplica, e assim por diante.

Código real sempre tem constantes e detalhes finos, mas a análise de complexidade está interessada em como o esforço cresce lá longe, quando n explode.

Exemplos concretos: somar e multiplicar matrizes

Um exemplo clássico de comparação de complexidade aparece quando se trabalha com matrizes. Imagine duas matrizes quadradas A e B, cada uma com n linhas e n colunas.

Soma de matrizes

Para somar duas matrizes, basta somar elemento a elemento:

  • resultado[i, j] = A[i, j] + B[i, j].

É preciso visitar cada posição uma vez.
Em uma matriz n × n, existem n² elementos. Logo:

  • o número de somas é n²;
  • a complexidade de tempo cresce como .

Esse padrão recebe o nome de complexidade quadrática: se o tamanho linear (n) dobra, a quantidade de operações cresce por um fator de quatro.

Produto de matrizes

O produto de duas matrizes já é mais trabalhoso.
O elemento C[i, j] é calculado como:

  • C[i, j] = soma, para k de 1 até n, de A[i, k] × B[k, j].

Ou seja:

  • para cada par (i, j), é preciso fazer n multiplicações e n − 1 somas;
  • existem n² pares (i, j).

O total de operações fica proporcional a n³.
É um salto enorme: se o n dobra, o custo aumenta oito vezes; se n triplica, sobe para 27 vezes.

Aí já se fala em complexidade cúbica, típica de certos algoritmos que usam três laços aninhados.

Melhor caso, pior caso e caso médio

Um algoritmo nem sempre executa o mesmo número de passos para toda entrada de mesmo tamanho. Isso aparece bem em operações de busca.

Imagine uma função que procura um número x em um vetor de n posições, percorrendo da primeira até a última:

  • Se x estiver logo na primeira posição, o algoritmo faz pouquíssimo trabalho.
  • Se x não estiver no vetor, o algoritmo precisa olhar todas as posições antes de desistir.

Para falar disso com mais precisão, utiliza-se três conceitos:

  • Complexidade de melhor caso:
    número mínimo de passos que o algoritmo pode executar para entradas de tamanho n.
    No exemplo da busca, seria quando o elemento procurado está na primeira posição.

  • Complexidade de pior caso:
    número máximo de passos entre todas as entradas de tamanho n.
    Na busca, ocorre quando o elemento não está presente ou está na última posição.

  • Complexidade de caso médio:
    média do número de passos, considerando alguma distribuição de probabilidades sobre as entradas.
    Por exemplo, supondo que todas as posições sejam igualmente prováveis para o elemento procurado.

Na prática, quem projeta algoritmos costuma se preocupar bastante com o pior caso, porque ele funciona como uma espécie de “garantia de teto”: assegura que o tempo nunca extrapola certa ordem de grandeza.

O caso médio é muito interessante teoricamente, mas depende da hipótese de como as entradas são distribuídas. Se essa hipótese estiver errada, a conta não representa bem o comportamento real.

Um exemplo com dois comportamentos diferentes

Para ficar mais claro, imagine um algoritmo muito simples:

  • a entrada tem um parâmetro x, que pode ser 0 ou 1, e duas matrizes n × n;
  • se x = 0, o algoritmo soma as matrizes;
  • se x = 1, o algoritmo multiplica as matrizes.

Aqui, o tamanho da entrada, em termos de n, é o mesmo. Só que o “caminho interno” muda completamente:

  • quando x = 0, o tempo cres­ce como n² (soma de matrizes);
  • quando x = 1, o tempo cresce como n³ (produto de matrizes).

Olhando por esse lado:

  • melhor caso: quando sempre se soma, complexidade quadrática;
  • pior caso: quando sempre se multiplica, complexidade cúbica;
  • caso médio: depende de com que frequência x é 0 ou 1.

Se, por exemplo, x = 0 tiver probabilidade q, e x = 1 tiver probabilidade 1 − q, a complexidade média Tm(n) seria algo como:

  • Tm(n) ≈ q · n² + (1 − q) · n³.

Quando n é grande, o termo n³ domina sempre que 1 − q não for zero. Isso significa que, mesmo se multiplicar for um pouco raro, o custo do algoritmo vai ser puxado para a ordem cúbica.

Complexidade de tempo e complexidade de espaço

Embora quase sempre o foco das conversas esteja na complexidade de tempo, existe também a complexidade de espaço, que mede quanta memória o algoritmo consome.

Alguns algoritmos economizam tempo às custas de usar mais memória, guardando resultados intermediários para evitar recomputações. Outros fazem o contrário: usam pouca memória, mas repetem cálculos.

Complexidade de espaço também é expressa em função de n:

  • um algoritmo que precisa de um vetor de n posições tem espaço proporcional a n;
  • um algoritmo que trabalha com uma matriz auxiliar n × n usa memória proporcional a n²;
  • um algoritmo recursivo pode consumir espaço proporcional à profundidade das chamadas.

Em muitos problemas, a memória disponível é tão importante quanto o tempo.
Um algoritmo teoricamente brilhante, mas que exige uma quantidade absurda de memória, pode ser inviável na prática.

Crescimentos típicos que aparecem

Quando se começa a analisar algoritmos, algumas formas de crescimento aparecem com frequência:

  • Constante: o esforço não depende de n (ou cresce tão pouco que é considerado fixo).
    Exemplo: retornar o primeiro elemento de uma lista que já está em memória.

  • Logarítmico: cresce como log n, muito devagar.
    Exemplo clássico: busca binária em lista ordenada.

  • Linear: cresce proporcionalmente a n.
    Exemplo: percorrer um vetor fazendo uma operação simples em cada posição.

  • Quadrático: cresce como n².
    Exemplo: dois laços aninhados que percorrem todos os pares (i, j) de um conjunto com n elementos.

  • Cúbico: cresce como n³, como no produto ingênuo de matrizes n × n.

  • Exponencial: cresce como 2, 3 ou algo do tipo.
    Exemplo: certos algoritmos recursivos que exploram todas as combinações possíveis.

Na prática, esse tipo de classificação ajuda a ter uma intuição imediata:

  • linear é, em geral, aceitável mesmo para entradas muito grandes;
  • quadrático pode ser problemático se n for da ordem de milhões;
  • cúbico costuma ser viável só para n relativamente pequenos;
  • exponencial explode tão rápido que só serve para tamanhos bem modestos de entrada.

Um modelo mental: como olhar um algoritmo e “sentir” a complexidade

Quando se pega um algoritmo escrito, uma forma simples de começar a analisar é:

  1. Identificar os laços principais (para, enquanto).
    Ver quantas vezes cada laço se repete em função de n.

  2. Ver se existem laços aninhados.
    Um laço dentro de outro tende a gerar multiplicação de fatores: se o laço externo roda n vezes e o interno também n vezes, já aparece um n².

  3. Observar se há chamadas recursivas.
    Contar quantas chamadas são geradas e quanto cada uma custa.

  4. Ignorar por enquanto os trechos que rodam poucas vezes (inicializações, impressões simples).
    Esses trechos raramente mudam a ordem de grandeza do custo.

Por exemplo:

  • Um único laço que vai de 1 até n, fazendo operações simples, costuma dar complexidade linear.
  • Dois laços um dentro do outro, ambos indo de 1 até n, costumam dar complexidade quadrática.
  • Três laços aninhados, cada um de 1 até n, tendem a levar a complexidade cúbica.

Claro que existem exceções, mas esse raciocínio já ajuda a criar uma espécie de “radar” intuitivo.

Por que essa história toda importa tanto

À primeira vista, toda essa conversa de “ordem de grandeza”, “n²”, “n³” pode parecer um pouco distante do mundo real. Só que, em sistemas de verdade, o impacto é enorme.

Imagine duas situações:

  1. Um algoritmo com complexidade n² rodando com n = 1000 precisa de algo em torno de 1 milhão de operações.
  2. Um algoritmo com complexidade n³ rodando com n = 1000 precisa de algo em torno de 1 bilhão de operações.

Agora pense se o n cresce para 10 mil:

  • n² vira 100 milhões;
  • n³ vira 1 trilhão.

Essa diferença pode ser a fronteira entre um sistema que responde em segundos e um que simplesmente não termina em tempo útil. É por isso que, em áreas como bancos de dados, redes, criptografia, inteligência artificial, tudo gira em torno de algoritmos que consigam lidar com dados enormes sem explodir o custo de tempo ou memória.

Complexidade de algoritmos é justamente o ferramental teórico para:

  • comparar duas soluções possíveis;
  • saber se vale a pena trocar um algoritmo por outro;
  • prever como o sistema vai se comportar quando o volume de dados aumentar.

Quem domina esse jeito de pensar deixa de ver código apenas como “faz ou não faz” e passa a enxergar uma camada a mais: “faz, mas com qual custo?”. Essa mudança de olhar é o que separa um simples “programinha que funciona” de um software robusto, planejado para sobreviver a entradas cada vez maiores.

Complexidade dos algoritmos

Quando alguém começa a mexer com complexidade de algoritmos, aparece uma notação que parece meio esquisita à primeira vista: o tal do O grande, ou notação O. Muitos encaram aquilo como um símbolo misterioso grudado em fórmulas do tipo O(n²) ou O(n³) e segue em frente sem entender direito o que está acontecendo ali.

A ideia, na verdade, é bem pé no chão: a notação O é um jeito compacto de dizer “qual é a ordem de crescimento” do custo de um algoritmo, ignorando detalhes que, para entradas muito grandes, quase não fazem diferença. Em vez de anotar uma expressão cheia de termos, a notação O funciona como um resumo do que realmente manda na conta.

Por que resumir fórmulas de complexidade?

Imagine que você analisou um algoritmo e chegou nesta expressão para o número de passos:

  • T(n) = 3n + 20.

Aqui, n é o tamanho da entrada (números em um vetor, por exemplo) e T(n) é quantos “passinhos básicos” o algoritmo faz. Em termos matemáticos, está lindo. Agora pense no que acontece quando n cresce:

  • se n = 10, T(10) = 50;
  • se n = 1.000, T(1000) = 3.020;
  • se n = 1.000.000, T(1.000.000) ≈ 3.000.020.

Repare que aquele + 20 fica cada vez mais irrelevante. Quando se está lidando com milhões de elementos, pouco importa se faz 3.000.000 ou 3.000.020 operações. A parte que realmente manda é o 3n.

Por causa disso, em análise de algoritmos se adotam duas simplificações importantes :

  1. Ignorar constantes multiplicativas.
    Se o número de passos é 3n, diz-se que é “da ordem de n”. Aquela constante 3 some do radar.

  2. Ignorar termos de menor grau.
    Se o número de passos é n² + n, o termo domina quando n cresce. O + n é pequeno perto de para valores grandes de n.

Alguns exemplos típicos:

  • 3n é aproximado por n;
  • n² + n é aproximado por ;
  • 6n³ + 4n − 9 é aproximado por .

Em vez de ficar repetindo “estamos ignorando constantes e termos menores”, usa-se um operador matemático que incorpora essa ideia: a notação O.

Definição intuitiva da notação O

Pense em duas funções:

  • f(n): o custo real (ou uma expressão) do seu algoritmo;
  • h(n): uma função mais simples, que vai servir como limite superior para f(n).

Dizer que f(n) é O(h(n)) significa, em termos informais:

“Para valores grandes de n, f(n) cresce no máximo como uma constante vezes h(n).”

Usando a definição mais formal, costuma-se escrever assim :

f(n) = O(h(n)) quando existe uma constante c > 0 e um valor n₀ tal que, para todo n > n₀,
f(n) ≤ c · h(n).

Ou seja:

  • a partir de um certo ponto n₀,
  • h(n) serve como um teto assintótico para f(n),
  • talvez multiplicada por alguma constante c.

A palavra chave é assintótico: o interesse está no comportamento para n grande, não em valores pequenos e detalhes finos.

Exemplos concretos para pegar o jeito

Alguns exemplos clássicos ajudam a “sentir” a notação O :

  1. f(n) = n² − 1

    • Para n grande, −1 não faz diferença.
    • Dá para encontrar uma constante c que torne n² − 1 ≤ c · n² a partir de algum n₀.
    • Então se escreve:
      f(n) = O(n²).

    Também é verdade que f(n) = O(n³), porque n³ cresce ainda mais rápido que n². Só que O(n²) é uma descrição bem mais ajustada.

  2. f(n) = 403

    • O número de passos é constante, não depende de n.
    • Diz-se que f(n) é O(1), lido como “ordem de 1”.
    • É um jeito de dizer: “não cresce com o tamanho da entrada”.
  3. f(n) = 5 + 2 log n + 3 (log n)²

    Para n grande, o termo que domina é (log n)². Os outros ficam relativamente pequenos perto dele.
    Então se escreve:

    • f(n) = O((log n)²).

    É verdade também que f(n) = O(n), porque n cresce ainda mais rápido que (log n)². Mas, se a intenção é descrever bem a ordem de grandeza, (log n)² é muito mais fiel.

  4. f(n) = 3n + 5 log n + 2

    Aqui, o termo dominante é o 3n. Os outros são menores para n grande.
    Fica:

    • f(n) = O(n).
  5. f(n) = 5·2ⁿ + 5n¹⁰

    Mesmo que n¹⁰ pareça enorme, o termo 2ⁿ cresce MUITO mais rápido do que qualquer potência fixa de n.
    Então, assintoticamente:

    • f(n) = O(2ⁿ).

Esses exemplos mostram a lógica geral: procura-se o termo que cresce mais rápido quando n aumenta, e é esse termo que aparece dentro da notação O.

Propriedades úteis da notação O

A notação O se comporta de maneira bem amigável com operações simples entre funções. Algumas propriedades são usadas o tempo todo :

Se g(n) e h(n) são funções positivas e k é uma constante, então:

  1. O(g + h) = O(g) + O(h)
  2. O(k · g) = k · O(g) = O(g)

Traduzindo em linguagem mais direta:

  • Quando você soma duas funções, a ordem de grandeza fica na mesma escala da maior delas.
    Exemplo: O(n² + n³) vira O(n³).

  • Multiplicar uma função por uma constante não muda sua ordem de grandeza.
    Exemplo: O(7n²) continua sendo O(n²).

Isso combina com a ideia de “ignorar constantes e termos menores”. Na prática, quando você vê uma expressão com vários termos, olha para aquele que domina o crescimento e joga o resto para baixo do tapete da notação O.

Como isso conversa com complexidade de algoritmos

Até aqui, falamos de funções em abstrato. Mas o objetivo real é descrever a complexidade de tempo (ou de espaço) de algoritmos usando essa notação.

Suponha que você já contou os passos de vários algoritmos simples:

  • Um algoritmo que inverte um vetor faz sempre ⌊n/2⌋ trocas.
    Para n grande, isso é da ordem de n.
    Diz-se: complexidade O(n).

  • Um algoritmo iterativo para fatorial faz n multiplicações, uma para cada valor de 2 até n.
    De novo, isso é proporcional a n.
    Complexidade: O(n).

  • A soma de duas matrizes n × n faz n² somas.
    Complexidade: O(n²).

  • O produto de duas matrizes n × n, na forma ingênua com três laços aninhados, faz um número de operações proporcional a n³.
    Complexidade: O(n³).

Repare como a notação O esconde todos os detalhes da contagem exata (se é n², n² + 3n, 2n³ etc.) e guarda só a “classe” do crescimento.

Essa simplificação tem duas grandes vantagens:

  1. Permite comparar algoritmos de forma independente de constante e de máquina.
  2. Foca no que realmente importa em aplicações grandes: como o custo explode (ou não) quando a entrada cresce.

Por que um mesmo f(n) pode ter vários “O( )” diferentes?

Uma dúvida natural: se n² − 1 é O(n³) e também é O(2ⁿ), por que escolher O(n²)? Não está tudo certo?

Sim, está. A definição permite dizer que n² − 1 é O(n³), O(n⁴), O(2ⁿ) e assim por diante, porque todas essas funções crescem mais rápido que . A questão é que algumas descrições são bem mais informativas do que outras.

Pense em duas frases:

  • “Eu moro no Brasil.”
  • “Eu moro no bairro X, na cidade Y, no estado Z.”

As duas podem estar corretas, mas a segunda é bem mais específica. Quando se escreve f(n) = O(n²), está se dando um “endereço” muito mais preciso do que f(n) = O(2ⁿ).

Na prática, quem faz análise de algoritmos costuma buscar uma forma de O( ) que seja:

  • correta;
  • o mais apertada possível, isto é, que descreva bem a ordem de grandeza, sem exagerar.

Mais adiante entram notações como Θ (teta) e (ômega) para falar de limites mais ajustados e limites inferiores, mas a notação O, sozinha, já resolve muita coisa do dia a dia.

Ligando O com melhor caso, pior caso e caso médio

Quando você diz que “a complexidade de pior caso de um algoritmo é O(n²)”, está afirmando:

“No pior cenário, o número de passos cresce no máximo na ordem de n².”

Se a complexidade de melhor caso é O(n), significa:

“Mesmo na situação mais favorável, o número de passos não passa de alguma constante vezes n.”

Já para o caso médio, a ideia é parecida, mas a função f(n) usada dentro do O vem de uma média ponderada (de acordo com probabilidades de cada tipo de entrada). O raciocínio da notação O continua igual.

Às vezes, um mesmo algoritmo tem:

  • melhor caso com uma forma de O( );
  • pior caso com outra forma de O( );
  • caso médio com uma terceira.

Um exemplo clássico é o algoritmo que, dependendo de um parâmetro x, decide se vai somar ou multiplicar matrizes:

  • quando x = 0, faz soma → O(n²);
  • quando x = 1, faz produto → O(n³).

Nesse cenário:

  • O melhor caso é O(n²);
  • O pior caso é O(n³);
  • O caso médio vai ser uma mistura, algo como q·n² + (1 − q)·n³, que assintoticamente fica com cara de O(n³) se a multiplicação tiver qualquer probabilidade real de ocorrer.

A notação O serve para registrar cada uma dessas situações sem sufocar a leitura com fórmulas completas.

Resumindo a ideia com uma metáfora

Imagine que você está olhando prédios de uma cidade de longe, do alto de um morro.

  • Lá de cima, você não enxerga se cada prédio tem 10 ou 12 andares.
  • Você percebe se um bairro é de casas baixas, se outro é de prédios médios, e se uma região específica tem arranha-céus gigantes.

A análise de complexidade com notação O faz algo parecido:

  • não se preocupa com detalhes milimétricos (constante a mais, termo de grau menor);
  • foca em “qual bairro” de crescimento a função está: constante, logarítmico, linear, quadrático, cúbico, exponencial.

Quando alguém diz que um algoritmo é O(n log n), está basicamente te avisando:

“Esse algoritmo está na região dos prédios médios: cresce mais do que linear, mas bem menos do que quadrático.”

Quando diz que algo é O(2ⁿ), o recado é:

“Aqui estão os arranha-céus exagerados. Para entradas um pouco maiores, o custo dispara de forma violenta.”

Comparando

Quando alguém começa a estudar algoritmos, uma pergunta aparece quase automaticamente:

“Ok, eu tenho um algoritmo que funciona… mas será que dá para fazer melhor?”

É aqui que entra a ideia de algoritmo ótimo. Não é só “rápido” no sentido vago. É o melhor que se pode conseguir para aquele problema, dentro de um certo modelo de computação. Não existe outro algoritmo que resolva o mesmo problema, de forma geral, com uma ordem de complexidade assintótica menor.

Primeiro passo: lembrar o que é custo de um algoritmo

Antes de falar em “ótimo”, precisa ficar claro o que significa comparar algoritmos.

Quando se estudam algoritmos, o “tempo” não é medido em segundos, e sim em número de passos em função do tamanho da entrada, que costuma ser representado por uma variável n. Esse tempo é escrito com aquelas notações:

  • O(… ) para limite superior assintótico (ordem de grandeza máxima);
  • Ω(… ) para limite inferior assintótico (ordem de grandeza mínima).

De forma bem resumida:

  • dizer que um algoritmo é O(n²) significa que, para n grande, o número de passos cresce no máximo proporcional a n²;
  • dizer que qualquer algoritmo para um certo problema precisa de pelo menos Ω(n²) passos quer dizer: não importa o truque, ninguém escapa de uma quantidade de trabalho da ordem de n².

Esses dois lados são importantes:

  • O(…): o que um algoritmo específico gasta;
  • Ω(…): o que qualquer algoritmo é obrigado a gastar, só por causa da natureza do problema.

Um algoritmo é chamado de ótimo quando essas duas coisas “se encontram”, isto é, quando a complexidade de pior caso do algoritmo bate no limite inferior do problema, até fator constante.

Limite inferior: o piso do esforço

Pense num problema bem simples: inverter os elementos de um vetor com n posições.

Não importa qual algoritmo se invente, uma coisa é inevitável: ler os n elementos em algum momento. Se o vetor tem n posições e o computador nunca olha para algumas delas, como garantir que a saída está correta?

Então, qualquer algoritmo de inversão precisa, no mínimo, fazer algo proporcional a n leituras. Diz-se que o problema tem limite inferior Ω(n).

O raciocínio vale para outros casos:

  • somar duas matrizes n×n exige ler todos os n² elementos; o limite inferior do problema é Ω(n²);
  • não há como somar sem olhar os dados.

Esse tipo de limite é chamado, às vezes, de limite trivial, porque vem direto do tamanho da entrada: se você precisa ler tudo, já tem ali um custo mínimo.

Em termos de metáfora: é como carregar caixas de um caminhão. Mesmo que o processo seja mega organizado, existe um número mínimo de viagens ou de levantadas, porque cada caixa precisa sair de onde está. Esse número mínimo é o “Ω” do problema.

Limite superior: o teto fornecido por um algoritmo real

Agora vem o outro lado: olhar para um algoritmo concreto e perguntar:

“Qual é a ordem de grandeza do número de passos que ele executa no pior caso?”

Se o algoritmo de inverter o vetor faz um laço que troca o primeiro com o último, o segundo com o penúltimo e assim por diante, ele executa algo em torno de n/2 trocas. Isso é da ordem de n operações. Então a complexidade de pior caso é O(n).

Da mesma forma:

  • somar duas matrizes n×n com dois laços aninhados (um para linha, outro para coluna) faz n² somas; complexidade O(n²).

Essas contagens fornecem o limite superior: garantem que, naquele algoritmo, o esforço nunca passa da ordem de n ou de n², de acordo com o caso.

Agora sim: o que é um algoritmo ótimo?

Juntando as duas coisas:

  • se um problema tem um limite inferior Ω(f(n)), ou seja, qualquer algoritmo precisa de pelo menos uma ordem de f(n) passos;
  • e se existe um algoritmo cujo pior caso é O(f(n)), isto é, que resolve o problema dentro dessa mesma ordem de esforço;

então esse algoritmo é considerado ótimo.

Em outras palavras, o problema exige pelo menos f(n) passos, e o algoritmo resolve com, no máximo, uma constante vezes f(n). Não dá para melhorar a ordem de grandeza. Tudo o que se pode brigar dali em diante são constantes (ser 2 vezes mais rápido, 3 vezes mais rápido etc.), mas a curva de crescimento é a melhor possível.

É como saber que, fisicamente, um certo trajeto só pode ser percorrido em, no mínimo, 10 minutos, dadas as leis da física e os limites de velocidade. Se alguém inventa um método que faz esse trajeto estabilizado sempre em algo como 11 ou 12 minutos, esse método é “ótimo” em termos de ordem de grandeza. Qualquer melhoria posterior vai ser em detalhes finos, não no “tipo” de tempo.

Exemplos bem concretos

1. Inversão de sequência

  • Problema: inverter um vetor com n elementos.
  • Limite inferior: Ω(n), porque é preciso ler a sequência.
  • Algoritmo padrão: laço que faz trocas em pares da ponta para o centro, com algo em torno de n/2 trocas.
  • Complexidade: O(n).

Como o limite inferior é Ω(n) e o algoritmo resolve em O(n), conclui-se que se trata de um algoritmo ótimo. Não há jeito, dentro desse modelo de custo, de inverter com menos do que uma ordem linear de operações.

2. Soma de matrizes

  • Problema: somar duas matrizes n×n.
  • Limite inferior: Ω(n²), pela leitura dos n² elementos.
  • Algoritmo padrão: dois laços aninhados, um para linha e outro para coluna, que fazem uma soma para cada posição.
  • Complexidade: O(n²).

De novo, limite inferior e limite superior batem na mesma ordem, então o algoritmo é ótimo.

Esses dois casos são, de certa forma, “fáceis” de analisar porque o limite inferior vem diretamente do fato de ser preciso ler todos os dados.

3. Produto de matrizes

Aqui as coisas ficam interessantes.

  • Problema: multiplicar duas matrizes n×n.
  • Limite inferior trivial: pelo menos tem que ler as matrizes, então Ω(n²).
  • Algoritmo ingênuo: três laços aninhados (linha, coluna, índice de multiplicação), com cerca de n³ operações. Complexidade O(n³).

Dá para dizer que o algoritmo ingênuo é ótimo?
Com base no limite trivial Ω(n²), não. Existe espaço entre n² e n³, e nada impede, em teoria, a existência de um algoritmo O(n²·log n), por exemplo.

Na prática, já foram descobertos algoritmos que multiplicam matrizes com complexidade assintótica menor do que n³. Isso mostra que o algoritmo com três laços não é ótimo.

Ou seja: quando o limite inferior é muito fraco, não basta bater nesse limite para dizer que o algoritmo é o melhor possível.

Quando o limite inferior não é trivial

Os exemplos anteriores usaram limites inferiores que vêm diretamente do tamanho da entrada. Só que, em vários problemas, é possível provar limites inferiores mais fortes, usando propriedades matemáticas do problema, e não só o “precisa ler os dados”.

Um exemplo clássico é o problema de ordenar uma sequência de n elementos usando apenas comparações.

  • Limite trivial (ler os elementos): Ω(n).
  • Mas há uma prova matemática bem conhecida de que qualquer algoritmo baseado só em comparações precisa de, pelo menos, Ω(n log n) comparações em pior caso.

Por outro lado, existem algoritmos como mergesort e heapsort cuja complexidade de pior caso é O(n log n). Ou seja:

  • limite inferior: Ω(n log n);
  • limite superior (de algoritmos reais): O(n log n).

Resultado: esses algoritmos são considerados ótimos dentro do modelo de comparação.

Esse tipo de encaixe é o sonho de quem trabalha com projeto de algoritmos: ter uma prova de que ninguém consegue fazer melhor (assintoticamente) e, ao mesmo tempo, ter uma técnica que chega justamente nesse limite.

A tal “distância” entre limites inferiores e algoritmos

Nem sempre a situação é tão bonita.

Para uma grande quantidade de problemas importantes, acontece algo assim:

  • o melhor limite inferior conhecido é um polinômio em n (tipo n, n², n³);
  • o melhor algoritmo conhecido tem complexidade exponencial, do tipo 2ⁿ, 3ⁿ ou parecido.

Ou seja, há um abismo entre o que se sabe que é necessário e o que de fato se consegue fazer com as técnicas atuais. Não se sabe se esse abismo existe porque:

  • ainda não foi descoberta uma prova de limite inferior mais forte, ou
  • ainda não foi inventado um algoritmo mais rápido, ou
  • as duas coisas ao mesmo tempo.

Esse cenário aparece em vários problemas difíceis em teoria da computação, especialmente em temas ligados à famosa questão P vs NP: será que certos problemas que parecem exigir tempo exponencial têm, na verdade, algoritmos polinomiais escondidos?

Nesses casos, ninguém se arrisca a dizer que um algoritmo é ótimo. O máximo que se pode afirmar é:

  • “Este é o melhor algoritmo conhecido até agora”
  • “O maior limite inferior conhecido é tal”.

A palavra “ótimo”, nesse contexto teórico, é reservada para quando há encaixe claro entre limite inferior e limite superior.

Como enxergar isso com uma analogia

Imagine que se quer viajar de uma cidade a outra, e um físico te diz:

“Pelas leis da física e pela distância, qualquer viagem vai demorar pelo menos 1 hora.”

Esse 1 hora é o limite inferior.

Agora compare três situações:

  1. Você tem um meio de transporte que sempre leva 1h15.
    A diferença é só um fator de 1,25. Em termos de ordem de grandeza, é praticamente a melhor coisa possível. Isso é análogo a um algoritmo ótimo: bate no limite inferior até constante.

  2. Você tem outro meio de transporte que sempre leva 10 horas.
    A diferença já é de 10 vezes o mínimo. Pode ser que exista um método muito melhor que ainda não foi inventado. Esse é o caso em que a complexidade do melhor algoritmo conhecido é bem acima do limite inferior.

  3. Pior: o limite inferior que o físico conseguiu provar é só “pelo menos 10 minutos”, mas todo transporte real leva de horas a semanas.
    Talvez a prova esteja fraca, talvez os meios de transporte sejam muito ruins, talvez os dois. Esse é o cenário de vários problemas difíceis em computação.

E na prática do dia a dia, isso importa mesmo?

Em código real, a discussão sobre “ótimo” pode parecer distante, mas ela tem impacto direto em:

  • desempenho de sistemas grandes: bancos de dados, motores de busca, redes;
  • custo de infraestrutura: menos tempo de CPU significa menos gasto de energia e de máquinas;
  • experiência do usuário: um algoritmo quadrático pode ser aceitável em poucos dados, mas inviável quando a empresa cresce.

Saber que um algoritmo é ótimo dá uma espécie de paz de espírito: se esse problema é crítico para o sistema, não adianta ficar gastando meses tentando encontrar algo com complexidade assintoticamente menor, porque as próprias provas matemáticas dizem que isso não existe naquele modelo.

Por outro lado, quando se sabe que o algoritmo não é ótimo (como o produto ingênuo de matrizes), isso acende uma luz de oportunidade para pesquisa e melhoria: talvez haja um jeito mais esperto de reorganizar o cálculo e ganhar ordens de grandeza em desempenho.

Um detalhe importante: ótimo não quer dizer “o melhor em todos os sentidos”

Vale um cuidado final: na teoria, “ótimo” significa bater o limite inferior na ordem de grandeza. Na prática, dois algoritmos com mesma complexidade assintótica podem ter comportamentos muito diferentes:

  • um pode ser mais simples de implementar, mais fácil de manter;
  • outro pode ter uma constante escondida enorme, usando dezenas de estruturas auxiliares;
  • um pode funcionar melhor em entradas pequenas ou médias, que são justamente o que aparece no mundo real.

Então, na hora de escolher um algoritmo para um sistema de verdade, entram outros fatores:

  • simplicidade;
  • robustez;
  • comportamento em casos típicos, não só no pior caso;
  • consumo de memória;
  • facilidade de testar e depurar.

A teoria da otimização algorítmica ajuda a estabelecer o limite do que é possível. Dentro desse limite, o trabalho do engenheiro de software é encontrar o ponto de equilíbrio entre matemática, desempenho e pragmatismo.


Aqui terminamos.

Meta e Google desafiando o ecossistema da Nvidia

Nvidia

A Nvidia não ficou gigante só porque fez uma GPU rápida e mandou uma nota fiscal junto. Ela ficou gigante porque transformou um detalhe técnico em hábito cultural: a ideia de que “fazer IA de verdade” é, por definição, fazer IA em CUDA.

Isso é mais poderoso do que um chip. Um chip você troca quando aparece outro melhor. Um hábito você troca quando a dor de mudar fica menor do que a dor de continuar do mesmo jeito.

Durante anos, o mercado contou uma história confortável para explicar o domínio da Nvidia: “as GPUs são as mais avançadas”. Essa frase tem um pedaço de verdade, só que ela serve melhor como marketing do que como explicação. Se desempenho bruto fosse o único juiz, a coroa teria mudado de cabeça várias vezes. Houve gerações em que concorrentes ficaram perto, houve soluções mais baratas, houve momentos em que o custo por desempenho parecia tentador. Mesmo assim, quase ninguém fez a troca em massa.

Porque o trono da Nvidia não fica só no silício. O trono fica na camada onde as equipes gastam anos da vida: ferramentas, bibliotecas, kernels, rotinas de treino distribuído, perfiladores, receitas de otimização, tutoriais, exemplos, bugs conhecidos, jeitos de debugar, jeitos de contratar. Um ecossistema que vira padrão não precisa obrigar ninguém. Ele só precisa fazer o resto parecer trabalhoso.

E aí entra o que mudou, com o peso de um “clique” que desencaixa um império: Google e Meta estão mirando exatamente a peça que sustenta esse aprisionamento invisível, o software. Em dezembro de 2025, a Reuters noticiou que o Google está trabalhando num projeto interno chamado TorchTPU, com o objetivo de tornar as TPUs mais naturais para quem desenvolve em PyTorch, com colaboração próxima da Meta, grande apoiadora do PyTorch, e com possibilidade de abrir partes do software para acelerar adoção.

A ambição é simples de dizer e brutal de executar: permitir que empresas mudem de Nvidia para TPU sem precisar reescrever as partes críticas do código, sem desmontar o stack inteiro, sem abandonar PyTorch. Se essa fricção cair, a conversa deixa de ser “Nvidia ou caos” e vira “Nvidia ou concorrência”. A Nvidia pode continuar excelente e ainda assim perder a coisa que mais importa em mercados maduros: poder de barganha.

O lock-in que ninguém assina, mas todo mundo sente

Quando se fala em lock-in, muitos imaginam contrato, cláusula, exclusividade. No caso da Nvidia, a amarra é mais elegante, e por isso mais perigosa: ela se esconde no custo prático da mudança.

Uma equipe que diz “nosso modelo roda em PyTorch” geralmente quer dizer algo mais específico, mesmo que não verbalize: “nosso modelo foi escrito, treinado, ajustado, validado e colocado em produção num mundo em que CUDA era o chão”.

CUDA, na prática, virou o sistema nervoso periférico do stack de IA. Não é só “um jeito de rodar na GPU”. É um conjunto de escolhas acumuladas:

  • bibliotecas de alto desempenho para operações essenciais,
  • caminhos de precisão mista e quantização que foram refinados por anos,
  • comunicação entre GPUs e entre nós de cluster, com soluções já testadas no inferno do tráfego real,
  • profilers, ferramentas de debug, mecanismos de compilação, kernels otimizados e, talvez o mais importante, a “memória muscular” dos times.

Mudar isso não é trocar uma peça. É mexer na base do prédio enquanto tem gente morando dentro.

Por isso o lock-in da Nvidia sempre foi mais psicológico e operacional do que técnico. Em empresas, risco é uma moeda cruel. Risco de regressão, risco de instabilidade, risco de atraso, risco de gastar meses para descobrir que um detalhe do pipeline não tem equivalente. A conclusão prática era automática: ficar na Nvidia parecia racional, mesmo quando era caro.

E aqui tem um ponto curioso, quase irônico: a Nvidia nunca controlou o PyTorch. O PyTorch nasceu dentro da Meta e cresceu como projeto aberto, virando o framework dominante por mérito próprio, do laboratório à produção. O que a Nvidia fez, com genialidade de quem entende o jogo, foi se integrar tão bem que parecia dona.

Integração não é posse. Se o PyTorch ganhar um caminho “sem drama” para rodar bem fora de CUDA, a maior barreira de saída começa a virar poeira.

Por que “existem alternativas” nunca foi suficiente

“Mas já existem alternativas”, alguém sempre diz, e tecnicamente isso é verdade. AMD tem ROCm, Intel tem seus esforços, há aceleradores específicos, há chips especializados em inferência. Só que o mercado de IA em escala não premia apenas a existência de uma alternativa, ele premia uma alternativa que tenha três coisas ao mesmo tempo:

  1. performance competitiva em cargas relevantes,
  2. maturidade operacional, aquela sensação de “isso não vai me trair em produção”,
  3. compatibilidade com o jeito que o mundo já trabalha.

A maioria falha na terceira. Algumas falham na segunda. Várias falham nas duas.

A Nvidia virou o “default” porque fez o caminho parecer inevitável. Não por decreto, por conforto. Quando tudo funciona, quando os tutoriais batem com a realidade, quando a equipe encontra respostas, quando dá para contratar gente que já sabe o stack, a escolha vira hábito. E hábito é um tipo de monopólio emocional.

É por isso que a movimentação do Google assusta: ela não tenta vencer a Nvidia “na pancada” só com hardware. Ela tenta vencer no ponto onde o hábito se forma, a experiência do desenvolvedor.

TPUs: o problema nunca foi músculo, foi idioma

As TPUs do Google sempre carregaram um ar de “poder oculto”, aquele tipo de hardware que a gente ouve falar como se fosse uma arma interna, restrita, feita para as necessidades do próprio Google. A leitura confortável para a Nvidia era: “isso não importa para o mercado, porque ninguém fora do Google usa”.

Só que essa leitura era superficial. O próprio Google Cloud descreve TPUs como aceleradores desenhados para treinamento e inferência de modelos de IA, e elas já sustentam cargas gigantes dentro do ecossistema do Google. O que travava a adoção ampla não era falta de desempenho. Era o idioma de software.

Por muito tempo, o Google apostou com força em JAX e no universo de compilação ligado ao XLA. De novo, tecnicamente faz sentido. Só que o mercado não funciona como seminário de compiladores. Enquanto o Google empurrava um caminho mais “puro”, o resto do planeta consolidava outro caminho: PyTorch.

Para a maioria das empresas, adotar TPU significava adotar um jeito diferente de pensar, adaptar pipelines, revalidar tudo, treinar equipe, e no final ainda ficar com a sensação de estar fora do fluxo principal da indústria. Empresas não migram frameworks por hobby. Elas migram quando são empurradas por dor extrema ou quando a migração é suave.

O que o TorchTPU tenta fazer é inverter a lógica: em vez de pedir que o desenvolvedor se adapte ao hardware, o hardware passa a “se adaptar” ao desenvolvedor.

“Mas já existe PyTorch em TPU”, então qual é o drama?

Aqui entra uma camada importante, que separa “dá para rodar” de “dá para viver”.

O mundo já tem, faz tempo, o PyTorch/XLA, que conecta PyTorch a dispositivos XLA como TPUs. Isso está documentado oficialmente e existe como projeto público. E até em notas antigas do próprio Google Cloud aparece a ideia de suporte via integração PyTorch/XLA.

Então por que ainda existe espaço para um TorchTPU “novo”?

Porque “rodar” não significa “rodar do jeito que o desenvolvedor espera”. Na prática, muitas integrações desse tipo carregam pequenas fricções que, somadas, viram um pedágio enorme: diferenças de cobertura de operadores, comportamentos inesperados, caminhos mais frágeis para debug, diferenças no desempenho por tipo de modelo, desafios de distribuição, tooling menos maduro, e um detalhe que virou central no PyTorch moderno: a experiência eager, aquela sensação de que você escreve o código e ele responde na hora, com o mesmo modelo mental em todo lugar.

Em outubro de 2025, surgiu no próprio repositório do PyTorch/XLA uma proposta explícita para evoluir a experiência e chegar mais perto de algo “nativo”, com a ambição de fazer tensor.to('tpu') parecer tão natural quanto tensor.to('cuda'). Esse é o tipo de frase que parece pequena, até você perceber o que ela realmente significa: transformar TPU de “backend especial” em “cidadão de primeira classe” dentro do PyTorch.

E isso muda o jogo porque reduz a parte mais cara da migração, a parte humana: reaprender o mundo.

O que o TorchTPU realmente ameaça na Nvidia

O mercado gosta de imaginar batalhas de hardware como corrida de cavalos: quem tem mais FLOPS, quem tem mais memória, quem tem mais largura de banda. Só que a Nvidia construiu uma fortaleza onde o hardware é apenas a muralha visível. O fosso está no software, e o fosso é feito de custo de troca.

O TorchTPU, pelo que foi reportado, mira exatamente isso: tornar TPUs amigáveis para o maior framework do planeta, sem exigir que times mudem seu código nem abandonem PyTorch, com colaboração da Meta, e com possibilidade de abrir partes do stack para ganhar tração mais rápido. Essa ameaça não é “as GPUs vão morrer”. Essa ameaça é “as GPUs deixam de ser a única resposta sensata”.

Em mercados de infraestrutura, “única resposta sensata” é como se fabrica margem alta. Quando o cliente não tem alternativa viável, ele aceita preço, prazo, pacote completo, aceitação resignada. Quando aparece uma alternativa boa o suficiente, o cliente não precisa nem migrar para já mudar a conversa. Ele só precisa conseguir dizer, com credibilidade: “eu posso ir embora”.

A Nvidia, por anos, vendeu previsibilidade. “Seu código roda aqui, seu time sabe mexer aqui, seu risco é menor aqui.” Isso sustenta múltiplos altos porque vira uma espécie de seguro embutido. Só que seguro perde valor quando a apólice concorrente fica boa.

Por que a Meta muda o peso específico dessa história

Se esse movimento viesse só do Google, parte do mercado trataria como mais um capítulo do “Google tentando competir com Nvidia”. O Google tem histórico de projetos tecnicamente brilhantes que demoram a virar hábito fora da própria casa.

A Meta muda isso por três motivos. Primeiro, porque a Meta tem interesse econômico brutal em diversificar. O custo de treinamento e inferência em escala de rede social global é um monstro que nunca dorme. Depender de um único fornecedor, num mercado com filas, prazos e preços agressivos, é aceitar fragilidade estratégica. Segundo, porque a Meta é o berço do PyTorch e continua sendo uma força determinante na sua evolução. Quando a empresa que ajudou a criar o framework participa da portabilidade de forma ativa, a chance de isso virar padrão aumenta, porque não é um “plugin lateral”, é o coração do ecossistema se mexendo. Terceiro, porque isso cria efeito cascata. Quando o criador do framework dá sinais de que múltiplos backends importam, ferramentas ao redor se adaptam, bibliotecas seguem, integradores entram, provedores oferecem suporte, e a profecia começa a se autorrealizar.

Esse ponto conversa com outra peça do tabuleiro: não é só software. O Google também tem buscado expandir o negócio de TPUs para fora do seu “jardim murado”, com reportagens indicando oferta de TPUs para uso em data centers de clientes e interesse de grandes compradores. Quando você junta “hardware disponível” com “experiência de PyTorch mais nativa”, o obstáculo deixa de ser filosófico e vira operacional, e isso é o tipo de coisa que compras e infraestrutura entendem muito bem.

O que muda quando “sair” deixa de ser impensável

Aqui é onde o mercado às vezes erra o foco. O preço da ação pode reagir pouco no começo porque o mundo ama narrativas simples, e a narrativa simples é: “Nvidia continua líder, ponto”. Só que a ameaça verdadeira costuma ser lenta, silenciosa e burocrática. Ela nasce em comitê de arquitetura, em prova de conceito, em planilha de custo por inferência.

Quando existe alternativa real, acontecem mudanças bem específicas:

  • Negociação: o cliente passa a negociar preço e condições com mais força, mesmo sem trocar nada no curto prazo.
  • Planejamento: times começam a desenhar pipelines com portabilidade em mente, para não serem reféns.
  • Padronização: ferramentas passam a assumir múltiplos backends como normal, e isso reduz a vantagem do “default histórico”.
  • Margem: margens caem antes da participação de mercado cair, porque o poder de precificação é o primeiro a sofrer.

A Nvidia não precisa perder o trono para perder poder. Ela só precisa deixar de ser inevitável.

A parte difícil que quase todo mundo subestima

A história seria fácil se bastasse “rodar PyTorch na TPU” e pronto. Não é assim. Construir paridade prática com CUDA em ambientes corporativos é o tipo de trabalho ingrato que exige anos de engenharia, testes e acertos finos. A própria existência de discussões públicas sobre tornar o backend mais “nativo” mostra que ainda há estrada pela frente.

Alguns desafios que costumam aparecer nesse tipo de migração, mesmo quando o código do modelo não muda:

  • cobertura completa de operadores e casos de borda,
  • estabilidade e previsibilidade em produção, com observabilidade madura,
  • desempenho consistente em modelos variados, não só em benchmarks “favoráveis”,
  • suporte a treinamento distribuído e inferência em escala com ergonomia de engenharia,
  • ecossistema ao redor, como quantização, kernels customizados, serving, compilação, profiling.

O detalhe é que essa lista não precisa ficar perfeita para ameaçar o lock-in. Ela precisa ficar boa o suficiente em um subconjunto valioso, por exemplo, inferência massiva de modelos populares, ou treinamento de certas famílias de arquitetura. Em infraestrutura, atacar um pedaço muito caro do custo já é suficiente para criar “saídas” na fortaleza.

E a Nvidia, fica parada?

Seria estranho imaginar a Nvidia olhando isso de braços cruzados. Ela tem recursos, talento e uma vantagem real: maturidade de ecossistema, ferramental e rede de parceiros.

O que tende a acontecer, como dinâmica de mercado, é uma corrida em duas frentes:

  1. A Nvidia reforça o valor do seu ecossistema, com melhores ferramentas, melhor performance, melhores bibliotecas, mais integração com frameworks, mais facilidades que façam o custo de ficar parecer ainda menor.
  2. O resto do mercado tenta reduzir o custo de sair, criando caminhos compatíveis, “nativos”, que façam a troca parecer só uma decisão de infraestrutura.

O segundo ponto é exatamente o que torna TorchTPU interessante, e por que a participação da Meta é um multiplicador, não um detalhe.

O cenário mais plausível, se essa peça encaixar

Em vez de imaginar um “colapso” da Nvidia, a visão mais realista é um deslocamento gradual do centro de gravidade:

  • no começo, TPUs viram alternativa crível para alguns workloads, principalmente onde custo por inferência pesa mais que qualquer outra coisa,
  • depois, empresas começam a adotar postura multi fornecedor, mesmo mantendo Nvidia como base,
  • com o tempo, a pressão competitiva aparece em preços, prazos e contratos, antes de aparecer em manchetes dramáticas.

Esse é o tipo de mudança que, vista de perto, parece lenta. Vista de longe, parece inevitável.

Uma última observação, que vale ouro para não cair em torcida: nada disso é destino. É uma hipótese de engenharia e mercado. Se o TorchTPU virar uma integração meia boca, se a experiência continuar “especial”, se o desempenho for inconsistente, se o suporte corporativo for frágil, a Nvidia segue com o fosso cheio de crocodilos. Se o TorchTPU entregar uma experiência realmente banal, previsível e eficiente, aquela palavra que sustenta impérios, inevitável, começa a perder o sentido.


Referências

Exclusive: Google works to erode Nvidia's software advantage with Meta's help https://www.reuters.com/business/google-works-erode-nvidias-software-advantage-with-metas-help-2025-12-17/

Cloud Tensor Processing Units (Cloud TPUs) https://cloud.google.com/tpu

PyTorch/XLA https://github.com/pytorch/xla

Evolving PyTorch/XLA for a more native experience on TPU https://github.com/pytorch/xla/issues/9684

Cloud TPU release notes https://docs.cloud.google.com/tpu/docs/release-notes

Meta and Google could be about to sign a mega AI chip deal - and it could change everything in the tech space https://www.techradar.com/pro/meta-and-google-could-be-about-to-sign-a-mega-ai-chip-deal-and-it-could-change-everything-in-the-tech-space

O desenvolvimento da tecnologia e economia

Economia e Tecnologia

Um jeito para começar é admitir o óbvio que esquecemos: a economia global é, em grande parte, um gigantesco sistema de informação disfarçado de “mercado”. Dinheiro é informação. Preço é informação. Juros são informação. Estoque parado em um galpão é informação atrasada, quase sempre cara. Quando você olha por esse ângulo, tecnologia deixa de ser “um setor” e vira um tipo de infraestrutura cognitiva que permite que bilhões de decisões descentralizadas aconteçam com menos atrito.

E é aqui que a conversa fica interessante: o que chamamos de “desenvolvimento tecnológico” não é só a invenção de novas possibilidades, é a criação de meios para reduzir incerteza, coordenar ações e automatizar confiança. Parece abstrato? Vamos entender melhor isso.

Pensa num produtor de café no interior de Minas Gerais no Brasil, negociando com uma torrefadora na Europa. Décadas atrás, esse contrato dependia de telefonemas, intermediários, papelada, bancos correspondentes, prazos longos, taxas gordas e uma boa dose de fé. Hoje, ele pode acompanhar preço em tempo real, travar parte do risco com instrumentos financeiros acessíveis, emitir nota, rastrear logística e receber em prazos menores. A colheita é a mesma, o que mudou foi o “sistema nervoso” que conecta oferta e demanda.

Esse sistema nervoso é feito de tecnologias atuais que costumamos tratar como coisas separadas: computação em nuvem (infraestrutura sob demanda, paga conforme uso), redes móveis, plataformas, APIs (interfaces de programação de aplicações, “tomadas” digitais que conectam sistemas), aprendizado de máquina (modelos estatísticos que aprendem padrões a partir de dados), criptografia (técnicas matemáticas para proteger e validar informação). Só que o efeito econômico aparece quando elas se combinam e viram capacidade de coordenação.

Coordenação é uma palavra que soa burocrática, só que ela é uma das forças mais caras do mundo. Em economia, existe um conceito útil chamado custo de transação (o custo de buscar informação, negociar, fiscalizar, garantir cumprimento). Se um país inteiro consegue reduzir custos de transação, ele “ganha produtividade” mesmo sem descobrir um novo mineral, mesmo sem aumentar a área plantada, mesmo sem achar um motor mágico. Ele passa a fazer mais com o que já tem. Isso ajuda a explicar por que softwares e sistemas, que parecem etéreos, conseguem mexer em coisas tão materiais quanto inflação, emprego e crescimento.

Aí aparece uma pergunta que incomoda: se tecnologia melhora produtividade, por que tantos sente a vida mais cara e mais instável? A resposta é bem mais complexa, é um conjunto de camadas. Ganhos de produtividade nem sempre viram salário, nem sempre viram preço mais baixo, às vezes viram concentração de mercado, às vezes viram novos custos (assinaturas, taxas, dependência), às vezes viram velocidade demais para instituições lentas. Tecnologia resolve problemas e cria outros, e os novos problemas costumam ser mais sutis.

Vamos falar de desenvolvimento de sistemas, porque é ali que a economia vira prática. “Sistema”, no mundo real, é uma rede de decisões automatizadas. Um ERP (Enterprise Resource Planning, software que integra finanças, estoque, compras e produção) não é só um programa, é um jeito de impor uma gramática à empresa: como se compra, como se registra, como se mede, como se audita. Quando uma empresa adota um ERP, ela está escolhendo um modelo de mundo. Essa escolha pode aumentar eficiência, mas também pode engessar processos ou esconder vieses, dependendo de como foi configurado.

Quem nunca ouviu alguém dizer “o sistema não deixa”? Esse “não deixa” é economia em ação. É governança (conjunto de regras e mecanismos de controle) codificada. E governança codificada pode ser maravilhosa quando reduz fraude e desperdício, pode ser péssima quando impede exceções humanas necessárias. Um hospital, por exemplo, precisa de protocolos; um protocolo rígido demais pode virar crueldade logística.

Essa ambivalência fica ainda mais forte quando sobemos para o nível global. Cadeias de suprimento modernas são sistemas distribuídos (partes independentes que cooperam por meio de comunicação e padrões). Distribuído aqui não é só “espalhado”, é um desenho em que cada nó toma decisões localmente, seguindo regras comuns. Isso dá resiliência, mas também abre portas para falhas sistêmicas: um porto congestionado, uma falta de semicondutores, um ataque cibernético, uma pandemia. O mundo fica eficiente e frágil ao mesmo tempo. Eficiência não é sinônimo de robustez; às vezes é o contrário.

A economia global vem buscando soluções justamente nesse dilema: como manter a produtividade sem aumentar a fragilidade? Uma resposta forte é observabilidade (capacidade de medir o que está acontecendo dentro de sistemas complexos a partir de dados e sinais). Observabilidade começou como um tema de engenharia de software, com logs, métricas e rastreamento. Hoje, ela virou peça econômica. Empresas querem enxergar seus fluxos quase como um organismo enxerga seus próprios batimentos.

E aqui aparece um ponto-chave: tecnologia não “cria riqueza” do nada; ela reorganiza informação, tempo e confiança. Quando você reorganiza esses três elementos, você altera o custo de coordenação e, por extensão, altera a produtividade. Esse é um dos motores discretos da economia digital.

Repara como esse ponto é menos glamouroso do que dizer “IA vai revolucionar tudo”. Só que ele explica mais. E por explicar mais, ele incomoda mais.

Falando em IA, o aprendizado de máquina não é “inteligência” no sentido humano; é uma coleção de técnicas para estimar funções a partir de dados, encontrando padrões úteis para previsão ou classificação. Um modelo pode prever inadimplência com boa precisão e ainda assim ser injusto, porque aprende padrões do passado, e o passado tem desigualdades. Se bancos automatizam crédito usando esses modelos, a economia ganha eficiência operacional, só que pode ampliar exclusão financeira se não houver governança e auditoria.

Auditoria algorítmica (processos para avaliar desempenho, vieses e impactos de modelos) vira um tema econômico porque crédito é energia do capitalismo. Crédito define quem investe, quem cresce, quem quebra. Um erro em escala não é um bug simpático, é uma força social.

Em desenvolvimento de sistemas, isso se traduz em uma mudança de mentalidade: não basta “funcionar”, precisa ser confiável, explicável em certo grau, seguro, compatível com leis, compatível com valores sociais. “Compatível com valores” pode soar moralista, só que é só realismo: sistemas moldam comportamento. Um aplicativo de transporte redefine como a cidade se move. Um marketplace redefine como pequenos vendedores competem. Uma plataforma de pagamentos redefine como informalidade vira formalidade, ou como novas taxas corroem margens.

Plataformas são outro conceito que merece definição, no sentido econômico, é uma estrutura que conecta grupos diferentes (por exemplo, compradores e vendedores) e cria efeitos de rede (quanto mais gente usa, mais valioso fica). Efeito de rede é poderoso porque gera concentração natural: as pessoas preferem onde já tem gente. Isso pode aumentar eficiência e reduzir custo de busca, mas também pode criar dependência e poder de mercado.

Você sente isso quando um pequeno negócio se torna refém de um app de entrega. O app resolve logística e acesso a clientes, só que cobra taxas, define regras, pode mudar o algoritmo de exposição. A empresa “ganha” mercado e “perde” autonomia. Economia digital é cheia dessas trocas: eficiência por controle.

E por falar em controle, a infraestrutura invisível do mundo atual é a nuvem. Nuvem não é “um lugar”; é um modelo de computação em que recursos são provisionados sob demanda, em data centers gigantes, com contratos e camadas de serviço. Isso permite que uma startup tenha poder computacional de corporação sem comprar servidores. É um choque de democratização produtiva. Só que também cria concentração: poucos provedores controlam a infraestrutura central de milhares de empresas. Um apagão na nuvem vira um mini-terremoto econômico.

Quando o tema é economia global, tecnologias que reduzem barreiras de entrada importam muito. Barreira de entrada é tudo aquilo que impede alguém de competir: capital inicial alto, necessidade de escala, regulação difícil, acesso a distribuição. Nuvem, ferramentas open source, pagamentos digitais e logística integrada baixam algumas barreiras. Isso explica por que tantos microempreendedores surgem e também explica por que a competição fica brutal. Se é mais fácil entrar, é mais fácil ser esmagado. O mercado vira um estádio com mais jogadores e regras mais rápidas.

Vamos dar um salto para um assunto que costuma passar: padrões. Padrão é chato, e exatamente por isso ele é revolucionário. Um padrão de dados (por exemplo, um formato de nota fiscal eletrônica, um protocolo de pagamento, um esquema de interoperabilidade) permite que sistemas “conversem” sem negociação individual. Interoperabilidade (capacidade de sistemas diferentes trocarem informação e operarem juntos) é uma forma de infraestrutura pública, mesmo quando é feita por consórcios privados.

Quando um país cria um sistema de pagamentos instantâneos, o efeito econômico não é só conveniência. Pagamentos instantâneos reduzem capital de giro necessário (dinheiro parado para cobrir prazo), reduzem risco de liquidação, permitem novos modelos de negócio e também aumentam rastreabilidade, o que muda a dinâmica de informalidade e arrecadação. A solução parece “tecnológica”, mas a consequência é macroeconômica.

Macroeconomia, aliás, vive sendo tratada como um bicho separado. Só que desenvolvimento de sistemas mexe com macroeconomia porque mexe com a velocidade do dinheiro, com a competição, com a formação de preços. Quando marketplaces comparam preços em milissegundos, o varejo muda. Quando algoritmos otimizam rotas, o custo logístico muda. Quando fintechs usam dados alternativos para crédito, o spread (diferença entre custo de captação e taxa cobrada) pode cair para alguns e subir para outros. Tudo depende de desenho, regulação e poder de mercado.

Regulação é outra palavra que costuma ser pintada como vilã ou heroína, quando ela é, na prática, um mecanismo de sincronização entre tecnologia e sociedade. Sem regulação, incentivos podem premiar o atalho perigoso: coletar dados demais, explorar trabalho, externalizar risco. Com regulação mal desenhada, você mata inovação e cria cartéis involuntários. O ponto difícil é calibrar.

E calibrar exige entender como inovação acontece. Existe uma visão ingênua de que inovação é um gênio inventando algo e pronto. No mundo real, inovação é uma cadeia: ciência básica, engenharia, produto, mercado, feedback, iteração, padronização, escala. Desenvolvimento de sistemas é o motor dessa iteração porque transforma hipótese em serviço operável. Operável significa rodar com milhões de usuários, com falhas previstas, com segurança, com monitoramento. Isso é uma ciência aplicada de altíssimo nível, mesmo quando é vendida como “um app”.

Segurança merece um parágrafo inteiro, porque ela é uma variável econômica. Cibersegurança (proteção de sistemas contra acesso indevido e ataques) custa dinheiro, e ataques também custam dinheiro, só que o custo aparece em lugares diferentes. Quando uma empresa economiza em segurança, ela reduz despesa hoje e aumenta risco sistêmico amanhã. Em escala global, isso é parecido com poluição: o incentivo individual pode produzir dano coletivo. A diferença é que o dano pode ser instantâneo e invisível. Um ransomware em hospital não é um incidente “digital”, é um incidente humano.

Aí volta a pergunta: tecnologia está “dando soluções” para a economia global? Sim, em vários sentidos mensuráveis: reduz custos de coordenação, amplia acesso, acelera inovação, melhora eficiência energética em alguns setores, otimiza recursos escassos. Só que ela também cria dilemas novos: concentração, precarização em alguns modelos, dependência de infraestrutura, assimetrias de informação ainda mais sofisticadas, e uma espécie de ansiedade sistêmica, porque o mundo fica mais rápido do que nossa capacidade de deliberar.

Talvez a parte mais delicada seja a assimetria de informação. Assimetria de informação é quando uma parte sabe muito mais do que a outra numa transação. A economia clássica já sabia que isso gera problemas: seleção adversa, moral hazard. No mundo digital, assimetria de informação vira uma arte. Plataformas sabem padrões de consumo, elasticidade de preço (o quanto a demanda muda quando o preço muda), propensão a compra, horários, renda provável. Isso permite personalização, o que pode ser ótimo, e também permite discriminação de preços, o que pode ser abusivo se não houver transparência.

E é aqui que dá para reforçar aquele ponto-chave: o eixo oculto dessa história é confiança automatizada. Quando sistemas conseguem registrar, validar e prever, eles substituem partes do tecido social que antes dependiam de instituições lentas ou relações pessoais. Essa substituição reduz fricção e aumenta produtividade, só que muda o poder de quem controla os mecanismos de validação. Quem decide o que conta como “verdade” no sistema? Quem tem o botão de desligar? Quem audita o auditor?

A economia global, hoje, é uma disputa por governança de infraestrutura digital. Não é só sobre gadgets. É sobre camadas: camada de dados, camada de computação, camada de pagamento, camada de identidade, camada de logística, camada de reputação. Reputação é especialmente interessante. Sistemas de reputação (notas, avaliações, histórico) resolvem um problema antigo: como confiar em estranhos. Eles fazem isso transformando comportamento em números. Só que números viram incentivos, e incentivos mudam comportamento. O motorista corre para manter nota, o vendedor implora avaliação, o consumidor usa a avaliação como arma.

Esse detalhe puxa outro: inovação técnica frequentemente resolve um gargalo e empurra o gargalo para outro lugar. Se você otimiza logística, o gargalo pode virar embalagem. Se você otimiza crédito, o gargalo pode virar inadimplência em crise. Se você otimiza produção, o gargalo pode virar descarte e sustentabilidade. Solução local, problema global. Um olhar científico pede que a gente trate isso como sistema dinâmico (sistema que muda no tempo com feedbacks). Feedback é quando uma saída do sistema volta como entrada e altera o comportamento. Mercados estão cheios de feedbacks: preço sobe, demanda cai, produção ajusta, preço cai. Tecnologia acelera esses loops.

A aceleração pode ser saudável ou caótica. Em mercados financeiros, por exemplo, automação e alta frequência tornaram o sistema mais eficiente em condições normais e mais propenso a eventos rápidos em condições extremas. Eficiência média e risco de cauda (eventos raros, muito danosos) podem andar juntos. Economia global vive tentando colher eficiência sem pagar a conta das caudas.

E o que isso tem a ver com desenvolvimento de sistemas? Tudo, porque sistemas são a forma concreta como esses loops são implementados. Um bug num sistema de precificação pode gerar uma cascata. Um erro num sistema de estoque pode causar desperdício em massa. Um erro num modelo de previsão pode gerar falta de produto, inflação localizada, perda de confiança. Quando tudo é conectado, pequenos erros ganham alavanca.

É por isso que engenharia de software moderna fala tanto de capacidade de continuar operando sob falhas e de testes intencionais de falhas para entender comportamento. Parece papo de dev, só que é economia aplicada. Uma empresa aguenta choques sem quebrar, uma cadeia resiliente reduz risco de desabastecimento; um setor resiliente evita que um incidente local vire crise macro.

O desafio prático, para quem constrói sistemas e para quem pensa economia, é reconhecer que “solução” raramente é um objeto, solução é um arranjo. Arranjo de incentivos, de padrões, de governança, de auditoria, de infraestrutura e de cultura. Quando esse arranjo é bem desenhado, tecnologias atuais viram ferramentas de prosperidade distribuída. Quando é mal desenhado, viram amplificadores de desigualdade e fragilidade.