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Tecnologia e sociedade

Tecnologia e Sociedade

Quando se fala em tecnologia, muitos pensam primeiro em telas brilhando, aplicativo novo, celular que acabou de ser lançado. Só que por trás de tudo isso tem uma ideia bem mais profunda e, de certa forma, desconfortável: toda tecnologia é uma extensão para o ser humano. Não é só um acessório bonitinho, é um pedaço do nosso jeito de pensar que foi colocado para fora do corpo, transformado em ferramenta. A partir do momento em que isso acontece, o próprio cérebro começa a mudar, começa a se reorganizar em torno dessas extensões. Pensar deixa de ser uma coisa puramente biológica e passa a ser também uma atividade tecnológica.

Dá para enxergar isso começando pela escrita. Antes de existir letra em pedra, papiro, papel ou tela, tudo o que uma pessoa sabia precisava caber dentro da própria cabeça, ou circular em histórias contadas em voz alta. Se alguém esquecia um detalhe importante, aquela parte da memória simplesmente se perdia. A escrita mudou o jogo porque pegou uma função fundamental da mente, lembrar, e empurrou para fora, para o mundo físico. Um caderno, um diário, um bloco de notas no celular são exemplos muito simples disso. Quando você anota um número de telefone ou uma ideia solta, não está só registrando, está tirando um peso da memória. A mente deixa de gastar energia lembrando detalhes e passa a usar essa energia para outras coisas, como criar, planejar, conectar pontos. A escrita virou uma espécie de HD externo da consciência.

Quando os livros começaram a ser copiados em massa com a imprensa, outra parte da mente foi estendida. Falar sempre foi a forma mais direta de compartilhar pensamentos, mas a fala ao vivo é limitada no espaço e no tempo. A imprensa pegou essa fala e espalhou pelo mundo. Um panfleto, um jornal, um livro carregam a voz de alguém para pessoas que nem tinham nascido quando aquele texto foi escrito. A fala deixou de depender do corpo presente. Isso muda totalmente a escala do que chamamos de conversa social. Ideias religiosas, científicas, políticas e filosóficas passaram a viajar muito rápido, influenciar muitos ao mesmo tempo, criar movimentos e revoluções. A imprensa não é só uma máquina de imprimir tinta, é uma extensão da nossa capacidade de falar e de convencer.

Durante tempos, essa extensão da mente ainda eram estáticas. Um livro não responde, não calcula, não simula nada. O computador trouxe outra dimensão para essa história. Quando alguém abre uma planilha e testa cenários, ou quando usa um simulador para ver o que acontece se mudar determinado parâmetro, está terceirizando parte do raciocínio para uma máquina. Isso não significa que a pessoa fica mais burra, significa que o tipo de inteligência que importa começa a mudar. Em vez de decorar fórmulas, importa mais saber formular perguntas, organizar dados, imaginar hipóteses. O computador virou uma extensão do raciocínio porque ajuda a percorrer caminhos lógicos em alta velocidade, repetindo, corrigindo, ajustando, sem cansar. Uma simulação de clima, um algoritmo de recomendação, um jogo de estratégia, tudo isso são espaços onde mente humana e processamento de máquina se misturam.

A programação entra como um passo a mais nessa extensão, quando alguém aprende a programar, aprende a transformar lógica em instruções explícitas. Aquela estrutura mental que já existia, do tipo “se isso acontecer, faço aquilo, senão vou por este outro caminho”, vira código. Programar é treinar o cérebro para pensar de maneira estruturada, desmontando problemas grandes em partes menores, criando funções que se repetem, prevendo exceções, desenhando fluxos. Para a máquina, aquilo é só uma sequência de bits, mas para quem escreve, é um espelho do próprio raciocínio. A sensação de ver um programa funcionando, mesmo que seja simples, é a de ver um pedaço do seu jeito de pensar ganhando vida fora da cabeça. O código acaba se tornando uma segunda linguagem do cérebro, tão natural que, com o tempo, a pessoa passa a pensar em termos de funções, loops e condições até em situações do dia a dia.

Quando se fala de sistemas operacionais, essa ideia de extensão da mente ganha um componente político, técnico e até filosófico. O Linux é um exemplo muito forte disso. Ele não é só um sistema para rodar programas, é um ambiente que convida a pessoa a entender o que está acontecendo por baixo da interface. Com Linux, é possível fuçar no núcleo do sistema, automatizar tudo com scripts, trocar o gerenciador de janelas, escolher como o sistema inicializa, montar o próprio fluxo de trabalho. Isso amplia a autonomia técnica. Em vez de aceitar passivamente o computador de como ele funciona seguindo como o fabricante decidiu, o usuário aprende a tomar decisões, ajustar, experimentar. Essa autonomia não é só técnica, é mental. Dá a sensação de que o computador é um instrumento de criação, não apenas um produto de consumo. A mente passa a se ver como autora do próprio ambiente digital.

Com o tempo, essas extensões foram se acumulando e se interligando até chegar em um ponto curioso: já não pensamos mais sem máquinas, pensamos com máquinas. Um exemplo simples é o hábito de procurar qualquer coisa no buscador antes mesmo de refletir alguns minutos sobre o assunto. A primeira reação a uma dúvida não é olhar para dentro, é alcançar o celular. A mente passa a rodar junto com o navegador, com o histórico, com as abas abertas. O mesmo vale para GPS, que redesenhou a forma como lidamos com espaço. Antigamente era comum memorizar caminhos, decorar pontos de referência, construir um mapa mental da cidade. Hoje, o cérebro terceirizou boa parte desse trabalho para o aplicativo de mapa. Em troca, ganhou liberdade para se ocupar com outras tarefas durante o trajeto, como ouvir um podcast ou planejar o dia. A pergunta é até que ponto isso é ganho e até que ponto é dependência.

Outro exemplo de como o pensamento se mistura com a máquina é o texto preditivo. Quando alguém digita uma frase e o teclado sugere a continuação, não está só acelerando o processo de escrever, está influenciando o conteúdo do pensamento. Certas expressões aparecem com mais frequência, certas formas de falar são reforçadas, alguns caminhos de frase se tornam mais naturais porque a sugestão já veio pronta. Isso cria um ciclo curioso, em que a mente alimenta o algoritmo com dados, o algoritmo devolve padrões, e a mente começa a pensar dentro desses padrões. A tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a ser um ambiente cognitivo, um lugar onde o pensamento acontece.

Existe também um lado emocional nessa história, redes sociais são extensão da nossa necessidade de reconhecimento, pertencimento e conversa. Elas registram memórias, lembram aniversários, sugerem recordações, mostram o que os outros estão pensando. O feed se torna uma espécie de espelho coletivo, onde cada um vê fragmentos de vidas e opiniões. Isso muda como construímos nossa identidade. Em vez de lembrar da própria história só pela memória interna, surgem lembranças em foto, em vídeo, em post antigo. A mente passa a depender dessa camada digital para organizar o passado, construir narrativas, revisar escolhas. A extensão da mente não é só racional, é também afetiva.

A grande virada dos últimos anos é que, antes, o ser humano adaptava suas ferramentas ao próprio ritmo. Levava tempo para aprender um ofício, fazer uma mudança, adotar um novo instrumento. Hoje, o cenário parece invertido. e a sensação é de estar correndo para acompanhar o ritmo das ferramentas. Sistemas operacionais mudam de versão o tempo todo, aplicativos atualizam a interface sem pedir licença, novas linguagens, frameworks e plataformas surgem em sequência. Quem trabalha com tecnologia sente essa pressão diretamente, mas qualquer pessoa com smartphone percebe que precisa reaprender pequenos detalhes com frequência. Isso tem impacto na mente, que passa a operar num estado constante de atualização.

Quando o cérebro precisa se adaptar o tempo todo, cresce a sensação de cansaço e dispersão. A atenção é cortada por notificações, por janelas que se abrem, por mensagens urgentes que exigem resposta imediata. A mente deixa de sustentar longos períodos de foco contínuo e passa a funcionar em fragmentos. Em termos cognitivos, isso é rearranjo de prioridades. Tarefas profundas exigem esforço, então ficam para depois. Tarefas superficiais, como responder mensagens e conferir alertas, dão pequenas recompensas rápidas e tomam o lugar central. A tecnologia, que poderia ser uma extensão poderosa para foco e clareza, acaba empurrando para um modo de operação acelerado, reativo e ansioso, se usada sem cuidado.

O ponto é que essa adaptação ao ritmo das ferramentas não é inevitavelmente negativa. Pode ser uma escolha consciente. Quando alguém organiza o próprio ambiente digital de forma cuidadosa, ajustando notificações, escolhendo bem quais aplicativos realmente merecem espaço, criando rotinas para estudo e trabalho, está usando a tecnologia como extensão da mente de um jeito mais saudável. Um simples editor de texto configurado com um tema agradável, atalhos bem pensados e uma estrutura de pastas clara pode se transformar em um laboratório de ideias. Um sistema de notas bem organizado, seja ele simples ou sofisticado, vira um mapa externo do pensamento que ajuda a não se perder em meio ao excesso de informação.

Nesse cenário, aprender o básico de programação pode ser visto menos como uma habilidade técnica isolada e mais como uma forma de alfabetização mental. Quando alguém cria um script para automatizar uma tarefa chata, está dizendo para o próprio cérebro que nem tudo precisa ser repetido manualmente. Isso liberta tempo e energia. Mesmo quem não pretende trabalhar como desenvolvedor pode se beneficiar dessa forma de pensar em termos de regras claras, entradas e saídas, dependências, exceções. Essa lógica estruturada conversa bem com o mundo real, em que problemas complexos raramente se resolvem de uma vez só, mas sim em partes, em etapas encadeadas.

Pensar a tecnologia como extensão da mente também ajuda a fazer escolhas mais conscientes. Se cada ferramenta expande uma parte da nossa capacidade mental, é importante perguntar que tipo de mente se deseja construir. Uma rotina baseada só em redes sociais rápidas tende a fortalecer a impaciência e a busca por estímulos constantes. Um uso mais focado em leitura profunda, escrita longa, experimentação criativa em código ou arte digital fortalece outras qualidades, como concentração, senso de detalhe, pensamento crítico. Não existe neutralidade completa, porque toda ferramenta puxa o pensamento em alguma direção. Ao mesmo tempo, não existe necessidade de demonizar essa dependência, já que humanos sempre dependeram de ferramentas, desde a primeira pedra lascada.

O código se consolidou como uma segunda linguagem do cérebro porque traduz uma característica muito antiga da mente humana, o desejo de antecipar resultados e controlar processos. Quando alguém escreve um programa, está criando um pequeno mundo com regras próprias, onde sabe de antemão o que deve acontecer se tudo estiver certo. Isso dialoga com a necessidade de previsibilidade em um mundo que, fora da tela, é cheio de imprevistos. Essa sensação de domínio pode ser viciante, mas também pode ser canalizada para resolver problemas reais, automatizar trabalhos repetitivos, criar ferramentas para outras pessoas, espalhar conhecimento.

O caso Hualongdong em foco

Homo Erectus
Ouça o artigo:

Um estudo recente de dentes achados em Hualongdong, no sul da China, está reescrevendo como entendemos a evolução humana na Ásia. As peças, datadas de cerca de 300 mil anos, pertencem a um grupo enigmático de hominíneos e exibem uma mistura incomum de traços primitivos e modernos. O quadro indica que o cenário evolutivo do Pleistoceno Médio (período de 781 mil a 126 mil anos atrás) foi mais intricado do que a narrativa clássica sugeria.

Antes dos detalhes, vale a pergunta que guia o leitor: que história dentes tão antigos conseguem contar? Dente é osso vivo, armazena pistas de dieta, crescimento e linhagem (conjunto de indivíduos com ancestralidade comum). Quando traços não combinam com rótulos conhecidos, a hipótese segura é que a diversidade real foi subestimada.

A equipe, liderada por Wu Xiujie, examinou 21 elementos dentários, 14 deles ainda cravados em um crânio preservado. Terceiros molares pequenos e faces vestibulares lisas aparecem lado a lado com raízes robustas em molares e pré-molares, combinação típica de um mosaico morfológico (mistura de características antigas e recentes no mesmo organismo). O mesmo conjunto já havia exibido faces próximas a Homo sapiens, mas mandíbulas e proporções de membros mais próximas de H. erectus.

Se parte do rosto parece moderna e parte da arcada lembra formas arcaicas, o que isso diz sobre processos evolutivos? Uma explicação provável é o fluxo gênico (troca de genes entre populações por acasalamento) entre grupos semelhantes a humanos modernos e linhagens mais antigas, como Homo erectus. Outra hipótese propõe uma linhagem própria, aparentada de perto aos humanos recentes, porém distinta de espécies já descritas.

Os dentes não mostram traços neandertais típicos. Esse detalhe separa os indivíduos de Hualongdong tanto de neandertais quanto de denisovanos, e dá peso à ideia de múltiplas experiências evolutivas em território asiático. Quando a gaveta taxonômica não comporta a peça, revisamos a gaveta ou o armário inteiro?

A cronologia importa. Várias descobertas no continente, como Homo luzonensis nas Filipinas, Homo longi no norte da China e Homo juluensis, povoam o mesmo intervalo temporal, entre 300 mil e 150 mil anos. A árvore genealógica ganha galhos curtos, encruzilhadas e ramos que começam e terminam perto. Diversidade maior implica trajetórias distintas, nem lineares nem uniformes.

O desenho oclusal humanoide e padrões de sulcos avançados em pré-molares sugerem surgimento precoce de traços hoje comuns. Oclusão é o encaixe entre dentes superiores e inferiores; sulcos são as “valas” na superfície mastigatória que orientam o desgaste. Se tais padrões aparecem cedo, quanta parte do que consideramos moderno já circulava antes da expansão global de Homo sapiens?

Há também o papel dos sítios pouco documentados, como Panxian Dadong e Jinniushan. Esses locais, a exemplo de Hualongdong, combinam características difíceis de classificar sem forçar categorias. Quando os dados incomodam, a tentação é encaixar à força. Ciência exige o contrário: expandir o modelo, testar previsões, aceitar zonas cinzentas.

Uma ideia central: a Ásia parece ter funcionado como laboratório evolutivo no Pleistoceno Médio. Retomar esse ponto ajuda a entender por que dentes, mandíbulas e faces contam versões diferentes do mesmo passado. Ritmos distintos de mudança podem atuar em regiões corporais diferentes, como se o relógio evolutivo marcasse tempos desiguais para cada tecido.

Do ponto de vista, vale observar como hipóteses competem. Fluxo gênico explica misturas; evolução convergente (traços semelhantes surgindo independentemente) também pode gerar parecidos enganosos. A diferença está nas assinaturas: raízes, cúspides e microdesgastes deixam marcas que estatísticas comparativas conseguem distinguir.

Que implicações práticas emergem? Reclassificar fósseis, recalibrar árvores, rever datas de dispersão. Hominíneos asiáticos deixam de ocupar nota de rodapé e ganham papel de protagonistas. Por ora, a identidade precisa dos indivíduos de Hualongdong permanece em aberto, porém o achado avança nossa compreensão sobre um passado comum mais diverso, reticulado e surpreendente do que imaginávamos. Também vale nomear termos: pré-molares antecedem os molares na arcada; cúspides são pontas elevadas que trituram; superfície bucal é a face do dente voltada para a bochecha. Sem essas chaves, a leitura vira labirinto. Ciência precisa de mapas.

 


Referência:

The hominin teeth from the late Middle Pleistocene Hualongdong site, China - Entre 2014 e 2015, abundantes fósseis humanos datados de cerca de 300 mil anos foram encontrados no sítio de Hualongdong (HLD), província de Anhui, sul da China. A amostra humana de HLD consiste em um crânio quase completo com 14 dentes in situ, uma maxila parcial com um pré-molar in situ, seis dentes isolados, três secções diafisárias femorais e algumas peças cranianas. Estudos anteriores descobriram que os hominíneos de HLD apresentam um mosaico de características primitivas e derivadas em relação ao clado Homo . Enquanto o crânio, os membros e a mandíbula exibem características predominantemente primitivas compartilhadas com espécimes de Homo primitivos, os ossos faciais apresentam afinidades mais próximas aos humanos modernos.  https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0047248425000806?via%3Dihub

Como evoluiu a cognição humana

Exercício físico e cérebro
Ouça o artigo:

Quando mergulho no passado distanciado de milhões de anos e reflito sobre o que de fato nos faz humanos, percebo que não foi apenas a evolução do corpo, mas uma espécie de processo contínuo de desenvolvimento do corpo e cérebro relacionado a cognição. Em cada lasca de pedra lascada por mãos ancestrais, em cada artesanato rudimentar, vejo não somente ferramentas, mas pistas de como nosso jeito de pensar foi se desdobrando, ganhando camadas, abrindo caminhos que nos levariam a imaginar coisas que jamais existiram.

Logo no início dessa jornada, nosso cérebro era moldada pelos desafios de simplesmente manipular objetos. Antes de sermos quais somos hoje, primatas já usavam as mãos para abrir nozes, sustentar gravetos e brincar com pedrinhas. Foi a partir desse manuseio rotineiro que surgiram os primeiros lampejos de “técnica”: não bastava apenas golpear, era preciso escolher onde golpear, calcular ângulos e até prever qual lasca poderia surgir. Com o tempo, essas decisões simples se tornaram sistemáticas, dando origem a lâminas, pontas e raspadores. Cada nova lasca foi um pequeno ensaio do que viria a se tornar planejamento e organização hierárquica de tarefas.

Percebo que não houve um grande salto de inteligência num piscar de olhos, mas sim um acúmulo gradual de competências técnicas que se apoiavam umas nas outras. Aquela rede primitiva de neurônios voltada ao manuseio de objetos ganhou força e se especializou, adaptando-se para fazer as pontas mais afiadas, as bordas mais uniformes. Ao longo de um milhão e meio de anos, as tantas gerações de hominídeos, cada uma carregando em seu DNA e em seu corpo a herança de práticas de seus antecessores, impulsionaram o refinamento dessas habilidades. Não foi um “clique”, foi um processo passo a passo, camada sobre camada de tentativas, erros e acertos.

Essa evolução técnica, por sua vez, se entrelaçou de modo profundo com a nossa capacidade de perceber o espaço de forma cada vez mais complexa. No começo, bastava diferenciar dentro e fora, cima e baixo, proximidade e afastamento, sistemas que muitos animais também dominam. Mas nós fomos além e começamos a visualizar o mundo como um grande tabuleiro em três dimensões, capaz de ser reinterpretado sob ângulos diversos. Foi nesse ponto que nasceu o que hoje chamamos de percepção alocêntrica, aquela que nos permite criar mapas mentais de territórios, planejar rotas alternativas e até imaginar lugares que nunca vimos.

Lembro-me de pensar em como nossa vida cotidiana depende desse tipo de raciocínio, quando pego uma bússola ou uso o GPS, não estou fazendo nada mais do que aproveitar habilidades que nasceram quando alguém, há centenas de milhares de anos, percebeu que podia lascar uma pedra para se defender e, em seguida, olhar ao redor e dizer “por ali deve haver água”. Aos poucos, essas competências espaciais ampliaram nosso alcance, permitindo migrações pelo planeta, descobertas de novos habitats e, por fim, trilhas invisíveis que se tornaram estradas e ferrovias.

Mas cognitivamente ainda havia um campo enorme a explorar: aquele que envolve como entendemos o outro. Ao observar nossos iguais, chimpanzés e bonobos já mostram um entendimento rudimentar de intenções alheias, mas o que desenvolvemos foi algo mais profundo. Começamos a antecipar desejos, entender crenças, até falsas crenças e nos comunicar não apenas por gestos, mas por símbolos.

Quando reflito sobre isso, sinto um arrepio ao imaginar que, muito antes de haver escrita, já existia em nossas cabeças uma hierarquia de intenções, eu sei o que tu sabes, eu sei que tu sabes que eu sei, e por aí vai. Essa “teoria da mente” foi crescendo em camadas, primeiro, sabíamos que os outros tinham objetivos, logo em seguida, aprendemos a ensinar; mais adiante, fomos capazes de usar sinais que representavam ideias distantes no tempo e no espaço.

A engrenagem social, a necessidade de manipular alianças, trocar favores e transmitir saberes, pressionou nossa seleção natural para ampliar essas competências. Quando nossos antepassados se reuniam em bandos, não bastava acertar um machado de pedra, era preciso coordenar a caçada, repartir o alimento e ensinar o passo a passo da fabricação da ferramenta para o aprendiz. Esse ciclo de ensinar-aprender-tecer relações impulsionou uma ampliação constante de como entendíamos a mente do outro.

Aquele momento em que alguém, já dominando a fabricação de pontas de flecha, percebeu que era melhor deixar várias armadilhas armadas em série, vigiá-las de longe, voltar periodicamente para checar e, ao mesmo tempo, organizar a partilha da caça. Isso exigia segurar na mente todo esse processo, ignorar distrações do ambiente, manter registro do que já havia sido feito e antecipar o que seguiria. E não se tratava de um talento de poucas pessoas: evidentemente, cânceres como a construção de grandes armadilhas, a confecção de redes ou mesmo a adoção dos primeiros sinais gravados em ossos, mostraram que estávamos criando extensões culturais para nossa memória.

Esses registros externos eram uma revolução na vida dos primeiros seres. Ao riscar três sulcos num bastão de osso, alguém libertava a própria memória de ter que contar cada item internamente. Uma sequência que seria difícil de reter em pensamento passou a existir ali, gravada. Foi o embrião de sistemas de numeração, calendários e, por fim, da matemática.

Ao juntar tudo isso, técnica apurada, percepção espacial refinada, teoria da mente complexa e funções executivas robustas, amplificadas por suportes culturais, construímos o que chamamos de “cognição humana”. E então, sem grandes saltos repentinos, sem pontos de ruptura espantosos, cruzamos fronteiras que jamais teriam sido possíveis apenas com instintos. Esse processo todo foi muito mais do que o crescimento de voluma cerebral. Foi, sobretudo, uma coevolução: nossos cérebros se moldaram pelas ferramentas que fabricamos, pelos grupos que formamos, pelos símbolos que inventamos. Ferramentas e cultura não foram meros instrumentos, mas verdadeiros parceiros nessa história. É um lembrete de que pensar não é apenas um ato interno, mas uma experiência que ganha forma fora de nós, nas pedras, nas marcas, nos traços, numa linha que, há 3,3 milhões de anos, começou com a primeira lasca não intencional e que hoje se desdobra em infinitas possibilidades.


Referências:

 

Primate cognition – Este livro apresenta uma análise aprofundada das capacidades cognitivas de primatas não humanos, explorando seus processos de percepção, memória e resolução de problemas por meio de experimentos controlados que revelam semelhanças e diferenças com a cognição humana. https://global.oup.com/academic/product/primate-cognition-9780195106244?cc=br&lang=en&

Tool use in animals: cognition and ecology – Coletânea de estudos que investiga o uso de ferramentas em diversas espécies animais, examinando como fatores ambientais e ecológicos influenciam a capacidade de manipular objetos e solucionar desafios por meio de inovações comportamentais. https://www.cambridge.org/core/books/tool-use-in-animals/92A8F1B3D5631E6D59985126BDA96EED

“An ape’s view of the Oldowan” revisited – Artigo que reexamina a fabricação de ferramentas líticas pelos primeiros hominídeos, comparando sua técnica com a de grandes símios modernos para compreender o grau de intencionalidade, habilidades motoras e planejamento envolvidos. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/evan.20323

A comparative study of the stone tool-making skills of Pan, Australopithecus, and Homo sapiens – Capítulo que compara a destreza na produção de lascas de pedra entre chimpanzés, australopitecos e humanos modernos, demonstrando como o refinamento das estratégias de lascamento evoluiu ao longo de milhões de anos. https://www.researchgate.net/publication/324043374_A_comparative_study_of_the_Stone_Tool-Making_Skills_of_Pan_Australopithecus_and_Homo_sapiens

Reduction sequences in the manufacture of Mousterian implements in France – Estudo etnográfico sobre as etapas de redução de blocos de silex na indústria musteriense, detalhando o fluxo de trabalho, os padrões repetitivos de percussão e as decisões técnicas tomadas para obter lâminas e raspadores eficientes. https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-1-4613-1817-0_3

Geometric morphometrics and paleoneurology: brain shape evolution in the genus Homo – Pesquisa que utiliza técnicas de morfometria geométrica para analisar alterações no formato craniano de diferentes espécies do gênero Homo, relacionando essas mudanças anatômicas com o desenvolvimento de regiões cerebrais ligadas ao raciocínio espacial. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0047248404001149

The hunter-gatherer theory of sex differences in spatial abilities: data from 40 countries – Trabalho que compila dados de quarenta nações para testar a hipótese de que diferenças de gênero em habilidades espaciais refletem adaptações de caçadores e coletoras, avaliando desempenho em tarefas de rotação mental. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17351740/

Humans have evolved specialized skills of social cognition: the cultural intelligence hypothesis – Artigo que propõe que os seres humanos desenvolveram competências sociais únicas, derivadas da pressão seletiva por cooperação e transmissão cultural, permitindo compreensão avançada de intenções, ensino e aprendizagem coletiva. https://www.science.org/doi/10.1126/science.1146282

How to learn about teaching: an evolutionary framework for the study of teaching behavior in humans and other animals – Este texto define um modelo evolutivo para investigar o comportamento de ensino em humanos e animais, discutindo critérios que distinguem ensino intencional de simples facilitação e seu impacto na transmissão de conhecimento. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24856634/

Working memory – Capítulo seminal que apresenta o conceito de memória de trabalho como sistema de armazenamento temporário e de controle atencional, explicando suas componentes centrais, mecanismos de manutenção de informações e implicações para tarefas complexas de raciocínio. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0079742108604521

What does the retrosplenial cortex do? – Revisão que sintetiza evidências sobre o papel do córtex retrosplenial na memória espacial e na navegação, descrevendo como essa região integra informações sensoriais e contextuais para apoiar o mapeamento de ambientes. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19812579/

Cognitive aspects of Upper Paleolithic engraving – Estudo que analisa as marcas gravadas em ossos e pedras do Paleolítico Superior, interpretando essas notações como extensões externas da memória e sistemas iniciais de registro numérico e calendárico. https://www.jstor.org/stable/2740829