Nokia: da fábrica de papel ao domínio dos telefones celulares

Muito antes de o nome Nokia aparecer na tela de um telefone celular, ele estava associado a papel, madeira, borracha, cabos elétricos e geração de energia. A empresa atravessou diferentes revoluções industriais até se transformar em uma das marcas tecnológicas mais reconhecidas do planeta.

Antigo logotipo da Nokia com um peixe, utilizado durante a fase industrial da empresa
Um dos primeiros emblemas associados à Nokia trazia a figura de um peixe, referência ao rio Nokianvirta e às origens industriais da empresa na Finlândia.

Para quem viveu as décadas de 1990 e 2000, a palavra Nokia quase sempre desperta a mesma lembrança: um telefone compacto, resistente, com bateria removível e um teclado físico que permitia escrever mensagens sem olhar para a tela. Em muitos lugares, a marca se tornou praticamente sinônimo de telefone celular.

Só que essa é apenas uma parte de uma história iniciada no século XIX, antes mesmo de a Finlândia existir como país independente.

A Nokia nasceu antes da própria Finlândia

A origem da Nokia remonta a 12 de maio de 1865, quando o engenheiro de minas finlandês Fredrik Idestam recebeu autorização para instalar uma fábrica de pasta de madeira às margens das corredeiras de Tammerkoski, na cidade de Tampere.

Naquele período, a região fazia parte do Grão-Ducado da Finlândia, território autônomo ligado ao Império Russo. A independência finlandesa só seria declarada em 1917. Isso significa que a empresa que viria a se tornar a Nokia é mais antiga que o próprio Estado finlandês moderno.

A primeira fábrica não ficava propriamente na cidade de Nokia, como algumas versões resumidas da história afirmam. Ela foi construída em Tampere. Em 1868, Idestam instalou uma segunda unidade perto da pequena cidade de Nokia, cerca de 15 quilômetros a oeste, onde o rio Nokianvirta oferecia melhores condições para o aproveitamento da energia hidráulica.

Em 1871, Idestam e o político e empresário Leo Mechelin organizaram formalmente o negócio como uma companhia chamada Nokia Ab — “Ab” era a abreviação sueca de Aktiebolag, equivalente a uma sociedade por ações. A empresa recebeu o nome da localidade onde estava sua segunda fábrica, cuja identidade também estava ligada ao rio Nokianvirta.

Os primeiros emblemas da Nokia não tinham as letras azuis que se tornariam famosas um século depois. Um deles mostrava um peixe, geralmente interpretado como uma referência ao salmão ou a outro peixe encontrado no rio. O desenho carregava o nome da empresa em finlandês e sueco, acompanhando a realidade linguística da região.

Não era ainda uma marca de tecnologia. Era uma empresa de papel e processamento de madeira.

Papel, borracha e cabos não eram inicialmente a mesma empresa

A trajetória industrial da Nokia costuma ser resumida como se a companhia tivesse decidido, sozinha, começar a fabricar papel, depois botas de borracha, cabos, televisores e telefones. A história real foi um pouco mais complicada.

A Nokia Ab começou ligada à produção de celulose e papel. Com o tempo, também passou a atuar na geração de eletricidade. Outras duas empresas finlandesas tiveram participação decisiva na formação do grupo que conheceríamos mais tarde: a Finnish Rubber Works, fundada em 1898, e a Finnish Cable Works, criada em 1912.

A Finnish Rubber Works produzia botas, pneus, mangueiras e vários artigos de borracha. A Finnish Cable Works fabricava cabos para redes de eletricidade, telégrafo e telefone. Eram empresas juridicamente separadas, embora seus negócios e proprietários tenham se aproximado ao longo do século XX.

Depois da Primeira Guerra Mundial, a Nokia Ab enfrentou dificuldades financeiras. A Finnish Rubber Works adquiriu participação na empresa, interessada principalmente em garantir energia para suas operações. Mais tarde, também assumiu o controle da Finnish Cable Works.

As três companhias mantiveram estruturas formais distintas durante décadas. A fusão definitiva ocorreu apenas em 1967, quando Nokia Ab, Finnish Rubber Works e Finnish Cable Works deram origem à moderna Nokia Corporation.

Esse detalhe muda um pouco a narrativa. A Nokia não passou linearmente de uma fábrica de papel para uma indústria de borracha e, depois, para uma fabricante de eletrônicos. O que aconteceu foi a formação gradual de um conglomerado industrial, reunindo negócios diferentes sob uma mesma organização.

Era uma Nokia muito diferente daquela que dominaria o mercado de celulares. O grupo fabricava papel, pneus, botas, cabos, televisores, equipamentos eletrônicos, sistemas de comunicação e até produtos destinados ao setor militar. A diversidade ajudava a empresa a sobreviver às mudanças econômicas, mas também criava uma estrutura pesada e difícil de administrar.

A entrada no mundo das telecomunicações

A aproximação com as telecomunicações aconteceu principalmente por meio da Finnish Cable Works. A fabricação de cabos já colocava a empresa em contato com redes telefônicas, transmissão elétrica e infraestrutura de comunicação.

Durante a década de 1960, o grupo começou a desenvolver equipamentos eletrônicos e sistemas de radiocomunicação. Uma divisão de eletrônica havia sido criada dentro da companhia de cabos, trabalhando com transmissão de dados, radiotelefones e dispositivos destinados a instituições públicas, forças de segurança e serviços de emergência.

Algumas cronologias atribuem ao engenheiro Kurt Wikstedt e à equipe de eletrônica da Nokia a criação de um radiotelefone em 1963 e de um modem de dados por rádio em 1965. Esses aparelhos, porém, não devem ser confundidos com um celular moderno. Eram equipamentos profissionais de comunicação sem fio, normalmente grandes e destinados a veículos ou instalações especializadas.

O desenvolvimento tinha uma lógica industrial. A Finlândia possuía grandes áreas pouco povoadas, longas distâncias e condições climáticas severas. Construir comunicação confiável nesse território era uma necessidade prática, não apenas uma aposta em um futuro mercado de consumo.

Ainda não existia o conceito de carregar no bolso um aparelho conectado permanentemente a uma rede. Os radiotelefones eram caros, pesados e dependiam de infraestrutura limitada. Muitos precisavam ser instalados em automóveis porque o conjunto de transmissão e a bateria ocupava espaço demais para ser transportado confortavelmente.

Mesmo assim, foi nessa fase que a Nokia acumulou experiência em rádio, antenas, modulação, redes e miniaturização. A transformação não aconteceu de repente nos anos 1990. Ela vinha sendo preparada havia décadas.

Os sistemas nórdicos abriram o caminho

Antes do GSM, os países nórdicos desenvolveram o padrão NMT — Nordic Mobile Telephone. A proposta era criar uma rede celular analógica compatível entre Finlândia, Suécia, Noruega e Dinamarca.

Essa compatibilidade era importante. Em outros lugares, cada país ou operadora adotava soluções próprias, dificultando o uso de um aparelho fora de sua região de origem. O NMT mostrou que sistemas móveis poderiam ser planejados de maneira cooperativa e ultrapassar fronteiras nacionais.

Em 1979, Nokia e a fabricante finlandesa de eletrônicos Salora criaram uma parceria para desenvolver equipamentos de radiotelefonia. A operação daria origem à Mobira, nome que apareceria em alguns dos primeiros telefones móveis comercializados pela companhia.

O Mobira Senator, apresentado em 1982, era um telefone para automóveis que pesava aproximadamente dez quilos. Era “móvel” porque podia acompanhar o veículo, não porque alguém pudesse colocá-lo no bolso e sair caminhando.

Cinco anos depois surgiu um aparelho muito mais interessante.

Mobira Cityman: o telefone que parecia pequeno em 1987

Em 1987, a Nokia-Mobira apresentou o Mobira Cityman, produzido em versões compatíveis com diferentes redes analógicas. O Cityman 900, destinado à rede NMT de 900 MHz, tornou-se o mais conhecido.

Ele pesava cerca de 760 gramas. Para os padrões atuais, seria um telefone enorme e desconfortável. Na época, foi apresentado como um aparelho compacto, capaz de ser carregado com uma mão e usado longe de um automóvel.

As dimensões faziam sentido diante do que existia anteriormente. Um equipamento de dez quilos havia sido reduzido a menos de um quilo. A bateria oferecia por volta de 50 minutos de conversação e aproximadamente 14 horas em espera, dependendo das condições da rede e do estado da bateria.

O preço era igualmente pesado. O Cityman 900 custava cerca de 24 mil marcos finlandeses, valor equivalente a vários milhares de euros quando ajustado para períodos mais recentes. Era um símbolo de poder econômico, destinado a executivos, autoridades e pessoas que realmente precisavam estar acessíveis fora do escritório.

O aparelho ganhou projeção internacional em outubro de 1989, quando o líder soviético Mikhail Gorbachev utilizou um Cityman durante uma visita a Helsinque para fazer uma ligação a Moscou. Na Finlândia, o telefone passou a ser chamado informalmente de Gorba, apelido derivado do sobrenome de Gorbachev.

A imagem tinha força. O chefe da União Soviética usando um telefone finlandês portátil sugeria que a comunicação móvel estava deixando de ser uma experiência de laboratório.

Só ainda custava caro demais para quase todo mundo.

O GSM não foi criado por duas empresas finlandesas

Outra simplificação comum diz que o padrão GSM foi desenvolvido pela Tampere Telephone Company e pela Helsinki Telephone Company. Essas empresas tiveram participação relevante na implantação da primeira rede comercial, mas não foram responsáveis, sozinhas, pela criação do padrão.

O GSM nasceu de um esforço europeu de padronização.

Em 1982, a Conferência Europeia das Administrações de Correios e Telecomunicações, conhecida pela sigla CEPT, criou o grupo Groupe Spécial Mobile. A missão era desenvolver uma especificação digital comum para as redes celulares europeias.

Representantes de governos, operadoras, fabricantes e organizações técnicas de vários países participaram desse processo. França, Alemanha Ocidental, Reino Unido, Itália e os países nórdicos tiveram papéis importantes. Em 1987, representantes de 13 países assinaram um memorando comprometendo-se com a implantação do sistema. A responsabilidade técnica acabaria sendo transferida para o recém-criado European Telecommunications Standards Institute, o ETSI, em 1989.

A Tampere Telephone Company e a Helsinki Telephone Company participaram de outro ponto decisivo. Junto de várias operadoras telefônicas locais, ajudaram a formar a Radiolinja, que pretendia construir uma rede celular digital capaz de concorrer com a operadora estatal Telecom Finland.

A Radiolinja adquiriu infraestrutura da Nokia, e a rede foi construída com tecnologia fornecida pela Nokia e pela Siemens. Era uma aposta arriscada. O GSM ainda enfrentava problemas técnicos, as especificações estavam em desenvolvimento e o mercado continuava dominado por redes analógicas.

A escolha acabou definindo o futuro da Nokia.

A primeira ligação oficial em uma rede GSM

Em 1º de julho de 1991, o então primeiro-ministro finlandês Harri Holkeri realizou aquela que ficou registrada como a primeira ligação oficial em uma rede GSM comercial. Ele estava em Helsinque e conversou com Kaarina Suonio, vice-prefeita de Tampere.

A chamada durou pouco mais de três minutos e foi realizada por meio de uma rede da Radiolinja, construída com equipamentos da Nokia e da Siemens. O telefone utilizado era um protótipo da Nokia. A própria companhia relembra o episódio em seu registro dos 30 anos da primeira ligação oficial GSM.

Há uma pequena nuance histórica: engenheiros realizaram chamadas de teste antes da cerimônia pública. A ligação de Holkeri não foi necessariamente a primeira transmissão técnica entre dois aparelhos GSM, mas foi a primeira chamada oficial associada ao lançamento comercial da rede.

Isso não diminui seu significado. Aquele momento mostrou que um sistema digital europeu havia saído dos documentos e laboratórios para funcionar em uma rede real.

O GSM oferecia melhor aproveitamento do espectro, comunicação digital, autenticação do assinante, uso de cartões SIM e capacidade de roaming entre redes compatíveis. Com a evolução das especificações, também permitiria o envio de mensagens SMS e diferentes formas de transmissão de dados.

A Europa, que possuía vários sistemas analógicos incompatíveis, passava a compartilhar uma plataforma. Para uma fabricante como a Nokia, isso representava um mercado muito maior.

O Nokia 1011 e o início do celular digital em massa

Em 10 de novembro de 1992, a Nokia lançou o Nokia 1011. O nome era uma referência à data de lançamento: 10/11 no formato utilizado em boa parte da Europa.

O aparelho é geralmente reconhecido como o primeiro telefone GSM produzido em série. O Science Museum Group registra que o modelo funcionava em 14 países quando chegou ao mercado, algo que demonstrava uma das principais vantagens do novo padrão.

O Nokia 1011 pesava aproximadamente 475 gramas. Era consideravelmente mais leve que o Cityman, mas ainda lembrava um grande bloco preto com antena externa. Sua bateria fornecia cerca de 90 minutos de conversação, dependendo das condições de uso, e a agenda armazenava aproximadamente 99 contatos — algumas fontes arredondam esse número para 90.

Ele não foi o primeiro telefone celular da Nokia nem o primeiro aparelho portátil do mundo. Sua importância estava em ser um telefone GSM fabricado comercialmente em escala, projetado para uma rede digital que poderia atravessar fronteiras.

Naquele mesmo ano, Jorma Ollila assumiu a liderança da Nokia. A empresa estava enfrentando uma crise e ainda carregava negócios muito diferentes. A nova estratégia concentrou recursos em telecomunicações e vendeu várias operações que não faziam parte desse foco.

A Nokia que fabricava papel, botas, cabos, computadores, monitores e televisores começou a desaparecer. Em seu lugar surgiu uma companhia cada vez mais especializada em redes e telefones móveis.

A decisão parecia perigosa. Acabou sendo uma das apostas industriais mais bem-sucedidas da década.

Quando a Nokia passou a caber no bolso

Durante os anos 1990, os telefones deixaram de ser símbolos exclusivos de executivos. Os aparelhos ficaram menores, as redes cresceram e os preços começaram a cair.

A Nokia percebeu cedo que um telefone celular não deveria ser tratado apenas como equipamento de engenharia. Ele também era um objeto pessoal. Precisava ser agradável de segurar, simples de entender e reconhecível.

Os menus eram relativamente diretos. Os aparelhos compartilhavam padrões de interface. As baterias podiam ser trocadas. Capas coloridas permitiam alguma personalização. Toques musicais, jogos e mensagens de texto transformaram o telefone em algo que ia além de fazer ligações.

A empresa também introduziu elementos que se tornariam parte da cultura popular. O toque da Nokia, derivado de um trecho da composição Gran Vals, do músico espanhol Francisco Tárrega, podia ser ouvido em ônibus, escritórios, escolas e ruas de praticamente qualquer país.

O jogo Snake encontrou o ambiente perfeito. Era simples, funcionava em uma tela monocromática e podia ser jogado com poucas teclas. Não precisava de gráficos sofisticados porque o próprio limite técnico fazia parte de seu charme.

Em 1998, a Nokia superou a Motorola e tornou-se a maior fabricante de telefones celulares do mundo. Poucos anos antes, ainda era um conglomerado finlandês tentando decidir quais divisões conseguiria manter.

Nokia 3310: o telefone que virou mito

O Nokia 3310, lançado em 2000, tornou-se o modelo mais associado à fase de ouro da empresa. Ele não foi o celular mais vendido da história, mas provavelmente é o mais lembrado da Nokia.

O aparelho reunia funções que pareciam bastante completas naquele momento: chamadas, mensagens SMS, despertador, calculadora, cronômetro, lembretes e jogos como Snake II, Space Impact, Bantumi e Pairs II.

Sua bateria podia alcançar até cerca de 260 horas em espera, dependendo da versão da bateria e das condições da rede. Esse número não significava 260 horas de uso contínuo. Em conversação, a autonomia era muito menor. Mesmo assim, poder passar vários dias sem procurar um carregador era normal.

O telefone também ganhou fama por sua resistência. Parte dessa reputação veio do corpo compacto, das capas plásticas substituíveis e da ausência de uma grande tela de vidro exposta. Quando o aparelho caía, era comum a tampa e a bateria se soltarem. Bastava montar as peças novamente e ligar.

Com o passar dos anos, essa durabilidade foi transformada em meme. O 3310 passou a ser tratado como um objeto indestrutível, capaz de sobreviver a quedas absurdas ou quebrar o chão antes de sofrer qualquer dano.

A realidade era menos exagerada, claro. Mas a fama não surgiu do nada.

Foram comercializadas aproximadamente 126 milhões de unidades do Nokia 3310. Um número enorme, embora inferior ao de outros aparelhos mais baratos produzidos posteriormente.

O telefone mais vendido não foi o 3310

O líder absoluto de vendas da Nokia foi o Nokia 1100, lançado em 2003 — e não em 2002, como aparece em algumas cronologias.

Ele não impressionava pelas especificações. Tinha tela monocromática, teclado simples, lanterna integrada, bateria removível e recursos básicos de chamadas e mensagens. Era barato, resistente e fácil de usar.

O aparelho foi pensado especialmente para mercados onde eletricidade, assistência técnica e renda disponível podiam ser limitadas. Seu teclado ajudava a evitar a entrada de poeira, a carcaça oferecia boa aderência e a lanterna tinha utilidade real em regiões com fornecimento instável de energia.

A estratégia funcionou. O Nokia 1100 ultrapassou 250 milhões de unidades vendidas, tornando-se não apenas o celular mais vendido, mas um dos produtos eletrônicos de consumo mais vendidos da história.

Existe algo curioso nisso. Enquanto a indústria tecnológica costuma celebrar o aparelho mais avançado, o maior sucesso comercial da Nokia foi um telefone propositalmente básico.

Ele fazia pouco. Fazia esse pouco de forma confiável.

A Nokia dominava o mercado, mas os números precisam ser separados

Em 2007, a Nokia estava no auge. A empresa vendia centenas de milhões de aparelhos por ano e tinha uma estrutura global de fabricação, distribuição e pesquisa.

Algumas narrativas afirmam que sua participação no mercado de celulares era de 51%. Esse percentual se refere melhor ao segmento de smartphones em determinados levantamentos ou períodos, não ao mercado total de telefones.

No terceiro trimestre de 2007, por exemplo, estimativas da Gartner colocavam a Nokia com aproximadamente 38% do mercado mundial de celulares. No mercado de smartphones, sua participação anual ficou próxima de 49%, chegando a cerca de 50,9% no quarto trimestre.

A diferença é importante. Nem todo telefone era um smartphone.

A Nokia já produzia smartphones havia anos, principalmente com o sistema operacional Symbian. A empresa não estava simplesmente presa a telefones básicos com botões enquanto todos os concorrentes criavam aparelhos inteligentes. Modelos das linhas Communicator, Nseries e Eseries ofereciam internet, e-mail, câmeras, aplicativos e recursos de produtividade.

O problema estava mudando de lugar. Já não bastava fabricar um bom aparelho.

O iPhone alterou a definição de smartphone

Quando a Apple apresentou o primeiro iPhone em 2007, não inventou o smartphone, a tela sensível ao toque ou a internet móvel. Esses recursos já existiam.

O que a Apple fez foi reorganizar a experiência.

A tela capacitiva multitoque tornou a interação mais direta. O navegador oferecia uma experiência próxima à de um computador. O sistema, a interface e o hardware eram projetados como partes do mesmo produto. Em 2008, a App Store transformou aplicativos em um mercado centralizado, fácil de acessar e rentável para desenvolvedores.

A Nokia possuía tecnologia, patentes, engenheiros experientes e uma das marcas mais fortes do mundo. Só que sua estrutura de software havia se tornado fragmentada. Diferentes versões do Symbian, interfaces variadas, exigências das operadoras e decisões internas dificultavam a criação de uma experiência consistente.

O Symbian havia sido projetado para uma geração de aparelhos limitada por memória, processamento e bateria. Era eficiente, mas sua arquitetura ficou cada vez mais difícil de adaptar ao mundo das grandes telas sensíveis ao toque e dos aplicativos complexos.

Os engenheiros podiam acrescentar funcionalidades. O problema era transformar tudo em uma plataforma simples para usuários e desenvolvedores.

Android, Symbian e uma transição mal resolvida

Em 2008, o Android chegou comercialmente ao mercado. O sistema do Google oferecia aos fabricantes uma plataforma comum que poderia ser adaptada a aparelhos de diferentes preços.

Samsung, HTC, Motorola, LG e várias empresas chinesas passaram a produzir smartphones Android. O número de modelos cresceu rapidamente. Desenvolvedores podiam criar aplicativos para uma plataforma presente em aparelhos de várias marcas, enquanto o Google oferecia serviços, ferramentas e uma loja centralizada.

A Nokia continuou investindo no Symbian, ao mesmo tempo em que desenvolvia outras iniciativas, como Maemo e MeeGo. O Nokia N900 e, mais tarde, o N9 mostraram que a companhia era capaz de criar sistemas mais modernos. Só que esses projetos não receberam tempo, continuidade ou alinhamento interno suficientes para formar um ecossistema competitivo.

Em fevereiro de 2011, sob a direção de Stephen Elop, a Nokia anunciou uma parceria estratégica com a Microsoft. O Windows Phone passaria a ser sua principal plataforma para smartphones.

A decisão tinha uma lógica. Adotar Android colocaria a Nokia ao lado de dezenas de fabricantes usando o mesmo sistema. O Windows Phone oferecia a possibilidade de formar um terceiro ecossistema, diferente do iPhone e do Android, com apoio financeiro e tecnológico da Microsoft.

Era também uma aposta perigosa em uma plataforma pequena.

Os Lumia chegaram tarde a uma disputa acelerada

Os primeiros resultados da parceria apareceram no final de 2011 com o Nokia Lumia 800 e o Lumia 710.

O Lumia 800 tinha desenho derivado do Nokia N9, corpo em policarbonato e uma interface visual bastante diferente dos concorrentes. O Windows Phone utilizava blocos dinâmicos, os Live Tiles, em vez da grade tradicional de ícones.

Os aparelhos receberam elogios pelo acabamento, pela câmera em modelos posteriores e pela fluidez do sistema. A linha Lumia não foi um fracasso instantâneo sem qualquer venda, como certas versões da história sugerem. Ela construiu uma base de usuários e chegou a obter relevância em alguns países.

Só que nunca alcançou o volume necessário.

O Windows Phone sofria com a falta de aplicativos importantes, atualizações incompatíveis entre gerações e pouca adesão de outros fabricantes. Desenvolvedores priorizavam Android e iOS porque era onde estavam os usuários. Consumidores evitavam o Windows Phone porque faltavam aplicativos. O conhecido ciclo de um ecossistema pequeno.

Enquanto a Nokia realizava essa migração, as vendas dos aparelhos Symbian caíam rapidamente. A linha Lumia não crescia com velocidade suficiente para compensar a perda.

Em 2012, a Samsung ultrapassou a Nokia e assumiu a liderança mundial em telefones celulares. Uma posição que a companhia finlandesa mantivera por cerca de 14 anos desapareceu em pouco tempo.

A Microsoft não comprou a Nokia inteira

Em setembro de 2013, Microsoft e Nokia anunciaram uma transação envolvendo a divisão Devices & Services, responsável pelos telefones celulares. O acordo foi concluído em 25 de abril de 2014.

A Microsoft pagou 3,79 bilhões de euros pelos negócios de dispositivos e serviços e outros 1,65 bilhão de euros pelo licenciamento de patentes. O valor anunciado totalizava 5,44 bilhões de euros, equivalente a pouco mais de 7 bilhões de dólares na cotação daquele período.

Não foi uma compra completa da empresa Nokia. As patentes essenciais também não foram simplesmente vendidas em bloco. Segundo o comunicado oficial da Microsoft, a operação envolvia a aquisição de grande parte da divisão de aparelhos, o licenciamento de patentes e o uso de serviços de mapas.

A Nokia Corporation continuou existindo de forma independente, mantendo negócios de infraestrutura de redes, pesquisa tecnológica, licenciamento e outros ativos. A unidade adquirida passou a operar dentro da Microsoft, com parte da estrutura organizada sob o nome Microsoft Mobile Oy.

Durante algum tempo, a Microsoft continuou usando o nome Nokia em telefones básicos. Nos smartphones, a marca Lumia foi gradualmente modificada para Microsoft Lumia.

A compra não produziu o resultado esperado. Em 2015, a Microsoft registrou uma baixa contábil de aproximadamente 7,6 bilhões de dólares relacionada ao negócio de celulares e anunciou milhares de demissões. Na prática, reconhecia que grande parte do valor da aquisição havia sido perdida.

O retorno da marca por meio da HMD Global

Em 2016, a recém-criada empresa finlandesa HMD Global assinou um acordo de licenciamento com a Nokia Corporation para utilizar a marca Nokia em telefones e tablets.

A operação teve várias partes. A HMD adquiriu da Microsoft determinados direitos relacionados aos telefones básicos e firmou um acordo de uso da marca com a Nokia. A FIH Mobile, subsidiária da Foxconn, adquiriu ativos de fabricação, distribuição e cadeia de suprimentos que pertenciam à operação da Microsoft.

Os novos aparelhos Nokia não eram produzidos pela antiga divisão móvel da Nokia Corporation como antes. Eram desenvolvidos e comercializados pela HMD sob licença de marca, com apoio de parceiros industriais.

A HMD lançou telefones básicos e smartphones Android. Também recuperou nomes históricos, entre eles Nokia 3310 e Nokia 8110, usando a nostalgia como parte da estratégia comercial.

Em 2024, a HMD começou a destacar sua própria marca em smartphones, reduzindo a dependência do nome Nokia em parte do catálogo. Isso gerou a impressão de que a parceria havia acabado completamente. Até 2026, porém, o site da empresa ainda apresenta aparelhos HMD e telefones Nokia e identifica a HMD Global como licenciada da marca Nokia para telefones.

A situação atual é bem diferente daquela vivida no começo dos anos 2000. Nokia Corporation e HMD Global são empresas separadas. Uma é proprietária da marca e de tecnologias licenciadas; a outra desenvolve e comercializa determinados aparelhos usando esse nome.

A Nokia ainda tem relação com telefones, só não os fabrica como antes

Dizer que a Nokia atualmente “não tem nada a ver com telefones celulares” é um exagero.

A Nokia Corporation não opera mais a antiga divisão de celulares de consumo que produziu aparelhos como o 3310, o N95 ou o Lumia 920. Também não concorre diretamente com Apple e Samsung fabricando smartphones sob a mesma estrutura do passado.

A companhia continua profundamente ligada às telecomunicações. Ela desenvolve equipamentos e software para redes móveis, infraestrutura de operadoras, sistemas ópticos, redes IP, soluções para empresas, tecnologias relacionadas ao 5G e pesquisa para futuras gerações de comunicação.

Também administra um portfólio relevante de patentes. Fabricantes de celulares utilizam tecnologias desenvolvidas ou licenciadas pela Nokia, mesmo quando o nome da empresa não aparece no aparelho.

A incorporação da Alcatel-Lucent, concluída em 2016, trouxe para o grupo os Bell Labs, um dos centros de pesquisa mais importantes da história das telecomunicações. O transistor, o Unix, a linguagem C e várias tecnologias de comunicação possuem ligações históricas com esse laboratório.

A Nokia deixou de fabricar o objeto pelo qual ficou conhecida, mas permaneceu na infraestrutura invisível que permite a esses objetos se comunicarem.

Uma empresa que sobreviveu a várias versões de si mesma

A história da Nokia costuma ser contada como uma ascensão seguida por uma queda: uma fábrica de papel se transforma na maior fabricante de celulares do mundo, ignora o iPhone, escolhe o Windows Phone e desaparece.

Essa narrativa é atraente porque é simples. A realidade não é.

A Nokia não ignorou os smartphones. Ela já os fabricava antes da Apple entrar nesse mercado. Também pesquisou telas sensíveis ao toque, tablets, sistemas baseados em Linux, lojas de aplicativos e serviços de internet. O problema foi converter todo esse conhecimento em uma estratégia coerente no momento em que o mercado deixou de ser definido pelo aparelho e passou a ser organizado pelo ecossistema de software.

A empresa sabia fabricar telefones excelentes. Não conseguiu controlar a transição na qual o valor principal migrou para sistemas operacionais, aplicativos, serviços em nuvem e comunidades de desenvolvedores.

Seu tamanho, que havia sido uma vantagem na produção e distribuição global, também dificultou mudanças rápidas. Divisões disputavam recursos. Projetos concorrentes avançavam ao mesmo tempo. Decisões técnicas se misturavam com compromissos assumidos com operadoras e mercados diferentes.

O iPhone não destruiu a Nokia sozinho. O Android também não. Eles expuseram problemas que já existiam e mudaram o mercado numa velocidade que a organização não conseguiu acompanhar.

Mesmo assim, a Nokia não desapareceu.

A empresa que começou processando madeira em 1865, participou da produção de eletricidade, atravessou o setor de borracha e cabos, construiu equipamentos de rádio, liderou a telefonia móvel e perdeu sua divisão de aparelhos ainda existe. Agora trabalha principalmente nos bastidores das redes.

Talvez essa seja a parte mais interessante de sua história. O Nokia 3310 parecia indestrutível, mas a companhia foi ainda mais resistente que o próprio telefone. Não permaneceu igual. Sobreviveu justamente porque, em diferentes momentos, conseguiu deixar para trás aquilo que um dia definiu sua identidade.

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